E a elite invadiu a avenida samba
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 1999
Ranulfo Pedreiro 
De repente, em plena casa de macumba, a polícia chegava:
- Nos disseram que vocês tocam samba aqui.
E todos iam em cana. Associados à marginalidade, os sambistas eram perseguidos com frequência no início do século. Ainda assim a música se desenvolvia nos terreiros recém-legalizados. Como quem não era do metiê não distinguia samba de batuque religioso, os rituais se tornaram um bom disfarce para a execução do ritmo.
Reprodução e Arquivo FolhaDois momentos que ilustram a transformação do Carnaval do Rio de Janeiro: da simplicidade e nobreza do passista, no Carnaval de rua de outrora, ao luxo e sofisticação dos tempos atuaisO fato, ressaltado em As Escolas de Samba do Rio de Janeiro, do jornalista e pesquisador Sérgio Cabral, ilustra a origem popular do gênero. Quando Pelo Telefone - considerado, com divergências, o primeiro samba gravado - alcançou notoriedade, as gravadoras perceberam o potencial da nova música e investiram no produto. A composição também marca o início da predominância do samba no Carnaval.
Essa aproximação tornou-se quase indissociável quando os desfiles de escolas de samba surgiram. Só que, nesta trajetória, ambos - samba e desfile - sofreram transformações que resultaram na elitização da festa e do próprio samba que, após assumir o formato de samba-enredo, embala hoje as apresentações num andamento muito próximo ao da marcha. Esse desenrolar de acontecimentos envolve o afastamento das camadas populares, substituídas por pessoas que podem bancar o luxo das fantasias.
Esse processo envolve ainda o engessamento causado pelas regras que hoje coordenam o desfile na espontaneidade original da manifestação. Já em 1979, Cartola se recusava a entrar na avenida porque a evolução se tornara uma verdadeira correria, ainda segundo o livro de Cabral. Essa pressa é decorrência do inchaço das escolas, que hoje chegam a desfilar com 5 mil integrantes e têm apenas 80 minutos para realizar o percurso. A aceleração foi acompanhada pela mudança de andamento e até de ritmo - e vice-versa.
O pesquisador José Ramos Tinhorão é convicto ao afirmar: Isto não é mais samba, é marcha. Com o aparecimento de compositores do Estácio de Sá, no começo do século, o samba foi se afastando do maxixe, prolongando as notas e se aproximando da dança. Foi no Estácio que surgiu a primeira Escola de Samba, a Deixa Falar, que insistiu em ser rancho - os ranchos desfilavam com mais componentes e tinham um status maior.
Arquivo FolhaA construção do sambódromo acabou com o coro das escolas, pois o sistema de som beneficia apenas os puxadores do sambaA Deixa Falar apareceu em 1928 e o título escola de samba surgiu porque o bloco congregava grandes sambistas, considerados professores do ritmo. A idéia se espalhou entre os bairros e, em 1932, foi realizado o primeiro desfile. O nome escola de samba era uma homenagem, num sentido didático, e o pessoal da Deixa Falar tinha tanto prestígio que outros blocos também passaram a usar o título, que de tão forte se consagrou, comenta Sérgio Cabral em entrevista à Folha2.
O jornalista, que pesquisa o samba há mais de 30 anos e conviveu com mestres como Cartola, revela que o desfile de 1932, organizado pelo jornalista Mário Filho, não teve repercussão fora do Carnaval popular, entre as classes mais ricas, ao contrário do que ocorre hoje.
O primeiro desfile também marcou o fim da própria Deixa Falar, que optou por sair como rancho. A alternativa se revelou trágica. A Deixa Falar não se classificou e surgiram denúncias de irregularidade e corrupção que resultaram na implosão da escola.
Antes do desfile se consagrar como a grande atração do Carnaval, o samba convergia para a Praça 11, onde populares, malandros e compositores brincavam e os sambistas se enfrentavam. É importante frisar que este Carnaval era distinto daquele das classes mais abastadas, que se divertiam em bailes e clubes.
Já na década de 50, os desfiles de escolas de samba eram uma das grandes atrações do Carnaval brasileiro. Mas os ranchos ainda tinham grande popularidade. Havia, inclusive, o boato de que a Portela se tornaria rancho.
Também foi nessa época que os desfiles sofreram grandes transformações: A classe média descobriu esse Carnaval e passou a impor o seu gosto às escolas. Elas se tornaram a grande atração e foram se sofisticando. As comunidades foram sendo substituídas por pessoas de classe média, que tinham dinheiro para comprar fantasias, explica Sérgio Cabral.
O pesquisador ressalta que, já na década de 70, a figura do sambista praticamente desapareceu da história das escolas de samba. Ao mesmo tempo em que grandes compositores se afastavam dos rumos que o desfile tomava, foram substituídos por carnavalescos, atrizes, modelos, enfim, pessoas distantes da realidade do samba e que pouco participam da escola, sem cantar, tocar ou dançar.
A construção do sambódromo também trouxe pelo menos um inconveniente: acabando com o coro das escolas, pois o sistema de som beneficia apenas os puxadores. Antigamente, nos desfiles, o samba era cantado por todos os integrantes, e os puxadores entoavam a melodia sem aparelhagem, embora, naquela época, as escolas não tivessem duas centenas de participantes.
As mudanças formaram um quadro problemático que culminou com o fim da espontaneidade. Se antes o samba, durante o desfile, só possuía a primeira parte - a segunda era improvisada - hoje é necessário um verdadeiro ritual político e estratégico para que a escola aprove um samba-enredo. Anteriormente, a música era exibida e escolhida pela comunidade.
Sérgio Cabral também aponta razões econômicas para a inversão de valores ocorrida dentro das escolas. As organizações enriqueceram, enquanto seus criadores se tornaram cada vez mais pobres.
Enquanto antes uma escola poderia ser identificada pela sua bateria, as circunstâncias atuais geraram uma padronização despersonalizada, que exclui o passista e compromete a dança. Ao mesmo tempo, o aspecto visual ganhou prioridade, aumentando a opulência do desfile.
O espetáculo, para Cabral, continua bonito. Mas o escritor observa com pesar o distanciamento entre samba e escola. E conclui, no livro: A marca escola de samba ficou tão forte que nem do próprio samba ela precisa mais.


