E A BIENAL CHEGA AO FIM
Encerra-se hoje o maior evento do mercado editorial brasileiro. Muita obra interessante ficou de fora da mídia
Telma Elorza

Arquivo Folha
Livros e mais livros pelos estandes da Bienal: poucos ganharam destaque da mídiaA Bienal Internacional do Livro, que se encerra hoje, no Expo Center Norte, em São Paulo, é, para quem gosta de livros, uma verdadeira mina de ouro. Lá é possível encontrar de tudo: desde a literatura de entretenimento (os chamados best sellers) até ensaios filosóficos de nomes impronunciáveis. Enfim, pincelando aqui e ali é possível descobrir títulos interessantes, embora a mídia não dê tanto destaque quanto mereciam.
É o caso de ‘‘Pixinguinha - Filho de Ogum Bexiguento’’ (Editora Gryfhus), de Marília Barbosa da Silva/Arthur de Oliveira Filho. O livro faz parte de uma série que a socióloga Marília Barbosa vem desenvolvendo com grandes figuras da música popular brasileira, como Silas de Oliveira, Paulo da Portela, Dorival Caymmi, Carlos Cachaça e outros. ‘‘Todos os meus biografados são grandes compositores que chegaram ao mercado fonográfico de uma forma menor do que mereciam. Coincidentemente, todos negros’’ - diz.
Com ‘‘Pixinguinha’’, Marília procurou resgatar a história do ‘‘gênio da raça’’, como ela o chama. Foram dois anos de pesquisa, ouvindo a obra, entrevistando a família e mergulhando em bibliotecas atrás de jornais e revistas da época. ‘‘Montei um quebra-cabeça para entender como nasceu este gênio, qual foi sua motivação e como ele conseguiu fixar o choro em nossa cultura, transformando-o no equivalente do jazz americano’’ - diz.
Outro título que merece ser visto é a ficção-histórica ‘‘Shakespeare Não Serve de Álibi’’ (Editora 34), de Licínio Rios. Autor de ‘‘A Besta do Jardim Botânico’’ e peças de teatro como ‘‘Pau de Arara’’, Rios é um jornalista carioca (ex-Educativa, Manchete e Globo) apaixonado por história, pelo Rio de Janeiro e por romances policiais. Em ‘‘Shakespeare’’, uniu suas três paixões.
O livro situa-se na última década do século passado. ‘‘Eu comecei a estudar este cenário e, ao contrário do que muitos historiadores fizeram, me fixei no Rio Vagabundo, de cortiço. No Brasil do século passado, a sociedade falava francês mas o carioca comum era totalmente anarquista. Quando houve a campanha de uma vacina, em 1907, foi uma revolta completa. E o que mostro neste livro é que lá não teve este negócio de que a Belle Époque foi uma coisa bonita’’ - afirma. Como ação centralizadora, um assassinato e um detetive neste pano de fundo que é a cidade do Rio de Janeiro. Um entretenimento assumido, mas com inteligência aguçada.
Os bastidores de uma notícia verdadeira apresentada como obra de ficção. Assim é ‘‘E a Terra Parou Novamente - O Caso dos ETs de Varginha’’ (Atual Editora), do jornalista, dramaturgo e compositor Jorge Fernando dos Santos, autor de outros 14 livros (inclusive um premiado, ‘‘Palmeira Seca’’). O livro marca a estréia de Santos na área de ficção científica e é voltado para o público juvenil.
‘‘E a Terra Parou...’’ traz a história dos ETs de Varginha e reúne todos os fatos sobre o caso que foram noticiados pela mídia, tratados de forma ficcional. ‘‘O livro nasceu de uma reportagem que fiz sobre o caso, que ocorreu em 96, para o jornal O Estado de Minas. Quando estive em Varginha, me deu a sensação de estar vivendo um episódio da série Arquivo X. Aí surgiu a idéia de escrever o livro’’ - conta. O próprio enredo é sobre uma repórter que vai investigar o caso. ‘‘Cerca de 90% do que está no livro foi retirado do noticiário. É lógico que dei um final que não houve até agora’’ - aponta.
Ele mesmo um apaixonado pelo assunto OVNIs e vida inteligente extraterrestre (‘‘eu vi um disco voador quando tinha 14 anos, em 1970, numa das mais famosas aparições já registradas no Brasil’’), Santos acredita que a leitura vai agradar a crianças e adultos. ‘‘Afinal, vivemos rodeados por ETs. O próprio Fernando Henrique Cardoso é um. O Ratinho é outro, assim como Carlinhos Brown e Chico César. Só que estes dois são ETs de luz’’ - brinca.
Outro que merece ser lido é ‘‘Sonoro’’ (Gryfhus), do escritor, compositor, dançarino e poeta multimídia Jorge Salomão. É um livro de textos, quase canções, que guardam em si uma musicalidade própria. ‘‘Sonoro é uma mistura de conceitos, uma desordem saindo pelas ventas, onde coloco toda minha insatisfação e inconformidade com as desigualdades que vejo no dia-a-dia’’ - diz.
Para ele, a música e a poesia se inter-relacionam. Por isto seus poemas/textos/canções acabam virando uma mistura de conceitos, ora música ora divagações. ‘‘Não vejo diferença entre gravar um disco ou escrever um livro ou até andar na rua. Tudo faz parte de uma única linguagem, a da vida. A gente tem que se abrir e quanto mais se abre, mais e mais se vive’’ - afirma.

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