Se dúvidas persistem em bem presentear nestas festas iminentes, que tal esquecer por um momento a cesta de trivialidades burocráticas e perecíveis e partir para um verdadeiro regalo, um bem de valor cultural inestimável e perene por apenas poucas dezenas de reais? Está chegando às lojas o DVD com o documentário ''Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje'', lançamento da Vídeo Filmes. É biscoito finíssimo, servido em louça requintada para o consumidor que gosta de cinema extra-série e de música lavrada em oficina da
melhor porque mais autêntica MPB.
Não se trata de apresentar o protagonista de resto, a nação felizmente sabe há muitos anos quem é Paulinho da Viola. O que encanta e deslumbra neste documento não convencional é conviver com ele durante pouco mais de 80 minutos, acompanhar suas andanças cariocas, dividir com ele com parcimônia, claro, respeitada na medida do possível a timidez do personagem, traço marcante de sua personalidade a intimidade em família, os amigos. Enfim, as coisas do mundo, minha nega!
Mesclando olhar afetivo, curioso e informativo, a diretora Izabel Jaguaribe se apoiou num roteiro que vinha há tempos sendo gestado pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura para a direção de João Moreira Salles. Izabel acabou entrando definitivamente no circuito depois de uma conversa com o compositor, recheada de afinidades. Tema dominante: a relação de Paulinho com o tempo, do tempo de Paulinho com a música e os ingredientes agregados a essa convivência, isto é, nostalgia, saudade, reflexões sobre passado, presente e futuro.
''É um sentimento meu em relação a coisas do passado. Sempre falo que não sinto saudade. Para mim vale o que está presente. É difícil de traduzir, como se o passado fosse vivo em mim. Mas tudo que vivi faz parte de uma única vida, é uma coisa só. A saudade anula a vida, e quando digo isso pode até ser uma certa pretensão. Veja bem: a perda de uma pessoa, o que você sente em relação a ela é natural. Mas não disso que estou falando. É outra coisa, aquilo dos momentos vividos que você guarda como se tivesse que voltar exatamente como era, o saudosismo. Isso que não é bom e eu não carrega comigo''.
O depoimento quase desabafo de Paulinho é notável porque parte de alguém que sempre escreveu versos de conotação saudosista. Mas a elegia à questão cronológica revela uma novidade que, afinal, é o eixo ''dramático'' do documentário: é o próprio Paulinho quem assume a assertiva de que não vive no passado, mas sim o passado é que vive nele.
Enquanto o filme ora reforça, ora distende sutilmente as ligações de Paulinho com suas raízes nesse sentido, os encontros com os ícones da velha guarda da Portela e com Zeca Pagodinho são mais que eloquentes , outros subtemas vão se sobrepondo de maneira fluída embalados pelo repertório de gala conduzido ou pela proverbial, elegante, aristocrática simplicidade de Paulinho ou por seus convidados. Assim, entre uma intimista e reveladora conversa os filhos ''entregam'' manias domésticas do pai , entre discretos mas arraigados hábitos (a marcenaria, a reconstrução dos carros, os relógios) dispostos aos longo da narrativa, o espectador vai desfiando a sonoridade de Paulinho, tão precisa quanto o mecanismo dos relógios, outro objeto de fascinação.
Paulinho da Viola, senhor absoluto do tempo, é o centro irradiador nessa cinebiografia delicada e também calorosa, mas nunca hagiográfica, que não economiza naquilo que o poeta tem de mais evidente: as grandes composições que o tornaram um dos mestres da MPB de ontem e hoje e cá está de novo este fator insinuante a atestar o transito sempre livre do compositor pelo túnel...do tempo.

Serviço
- DVD ''Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje''. Lançamento Vídeo Filmes. Duração: 83 minutos. Preço sugerido: R$ 49,90. Mais informações:www.videofilmes.com.br

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