Nenhum artista do universo da ópera vendeu tantos discos quanto ela. Nenhum outro cantor lírico exerceu tanto fascínio ou foi número de tantos estudos como ela. Tudo bem, talvez Caruso. Mas aí a vida no jet set e as polêmicas, das mais diversas possíveis, servem de desempate. Maria Callas é um fenômeno que extravasou o mundo lírico, foi uma das mulheres mais fascinantes e admiradas do século 20. De imigrante gordinha na Nova York da primeira metade do século 20, tornou-se símbolo de beleza, sensualidade, poder. E morreu cedo, aos 55 anos, deixando uma legião de fãs inconformados. Por que tamanho fascínio? Muita gente já tentou responder a essa pergunta, nem sempre com sucesso. Uma dessas tentativas foi o documentário ''Life & Art'', filmado em 1987 para marcar o aniversário de dez anos da morte da soprano e agora relançado em DVD.
O fato é que quanto mais se explica, menos se entende o fenômeno Callas. A voz é realmente uma coisa de outro mundo. Ela cantou de tudo, da Brunhilde na Valquíria de Wagner e isso ainda no início de carreira! a Carmen na ópera de Bizet. No meio do caminho, toda uma variedade de papéis franceses e, principalmente, italianos, de diversas épocas, estilos. Qualquer cantor razoavelmente responsável com a própria voz tudo bem, são poucos vai dizer que isso não se faz, ao menos não como ela fez. Plácido Domingo está com 65 anos e segue aumentando a lista de mais de 110 papéis interpretados. Mas fez isso de modo consciente, mudando os papéis de acordo com a mudança da voz, que foi ficando mais escura e encorpada. Isso explica o caso Domingo e, de modo inverso, a breve carreira de Callas.
Tudo isso diz muito e não diz nada e assim se pode resumir a enxurrada de estudos, livros, biografias sobre Callas. É aí que a razão é posta de lado e entra a emoção. Daí para o culto, é um pulo. E, no culto, a acepção pessoal e aleatória ganha e não há nada necessariamente errado nisso status de verdade absoluta. E são essas meias-verdades definitivas que emergem no documentário.
Tirada a biografia pura e simples, o local de nascimento, os primeiros papéis, etc., sobram depoimentos de gente como Franco Zeffirelli, que trabalhou com ela e até um filme fez há alguns anos, Callas Forever, um exercício narcisista de idealização que também está disponível em DVD. Ele afirma que Callas era, na vida real, a ''frágil e resignada'' Violetta; era também a sacerdotisa Norma, ou Medéia. E isso fez dela alguém especial, um passo à frente das colegas. Justificar assim sua trajetória é, no mínimo, redutor.
A série de teorias e especulações vai continuar por muito, mas muito tempo. Mas, não ligue para ela. Simplesmente ouça Callas. Vale mais a pena.

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