DVD/LANÇAMENTO - 'Engraçadinha' ganha edição especial
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de julho de 2006
Sérgio Salvia Coelho<br> Folhapress 
Reciclando clichês com desenvoltura modernista, Nelson Rodrigues sempre soube tirar partido de sua ambiguidade de ''anjo pornográfico''. Aspirava ao escândalo com uma volúpia de anjo exterminador, ao reformar o teatro brasileiro com a cumplicidade de Ziembinski. Mas, ao mesmo tempo, não tinha pudor de sobreviver com os velhos truques do folhetim. De qualquer forma, seduzia o público, instigando os limites de seu conservadorismo.
Assim, em 1959, quando brigava por sua peça ''Boca de Ouro'', era celebrado mesmo pelo folhetim ''Asfalto Selvagem'', no qual a perversa polimorfa ''Engraçadinha'' galvanizava o Rio com incestos, estupros e mutilações. Nada que se aproximasse de Sade, a não ser pela ironia, mas essa água com açúcar levemente apimentada arcou com a fama de ser a verdadeira face obscura da alma brasileira.
A pecha de pornógrafo ofuscou sua obra de dois modos contraditórios. Primeiro, o desagradável dos temas deu pretexto à censura das peças até a década de 1960, e o pudor de palavrões inexistentes acanhou a defesa pelos intelectuais. Depois, a contracultura o celebrou pelo que tinha de mais superficial, e ''Engraçadinha'' voltou ao culto das massas pelas lentes de J.B. Tanko, em 1964 e 1966.
Com o faro de jornalista para o que vende bem, Nelson Rodrigues tem ibope garantido na Globo, herdeira dos folhetins. Não espanta que a minissérie ''Engraçadinha'', agora relançada em DVD, ter merecido um elenco all-star, incluindo, entre outros, Cláudia Raia (em seu primeiro papel ''dramático'') e Alessandra Negrini, revelada em teste disputado.
Como avaliar a atuação de Negrini? É espontânea, despudorada dentro dos limites seguros da Globo, mas parece arcar com uma função social da libido pública, uma Miss Brasil ao revés. Teve que carregar a marca pelo resto da carreira, enquanto que, no teatro, o anjo rodriguiano era aprofundado por Antunes Filho, Eduardo Tolentino, do Grupo Tapa, e Paulo Morais, da Cia Armazém, surgida em Londrina e radicada atualmente no Rio de Janeiro.
Imagino que, em algum lugar do Brasil, uma atriz que não tenha passado no teste para ''Engraçadinha'' sobreviva hoje de um teatro com menos visibilidade, mas que tenta fazer sentido além do vendável. Por outro lado, acredito que muitos tenham tido contato com o nome de Nelson Rodrigues pela TV, naquilo que ele tem de menos inovador, graças à eficiência comprovada da Globo. Não importa: cada um com seu mercado. O Anjo reformador dos palcos vai muito bem, obrigado. Mas é pena que não encontre o mesmo respaldo na mídia que o pornógrafo cult das telas.
Serviço
- Lançamento do DVD ''Engraçadinha'', direção de Denise Saraceni. Com Cláudia Raia, Alessandra Negrini e outros


