Chegou ao circuito outra maravilha do diretor Satoshi Kon, cujos dois primeiros filmes, ‘‘Perfect Blue’’ e ‘‘Millenium Actress’’, já tinham elevado a animação japonesa de longa-metragem a patamares de realismo e fantasia quase inimagináveis. Desta vez é ‘‘Tokyo Godfathers’’ (a tradução literal, ‘‘Os Padrinhos de Tóquio’’, não foi utilizada, prevalecendo o título original), lançamento em DVD por enquanto disponível no mercado brasileiro apenas para venda.
  Vagamente baseado em ‘‘Three Godfathers’’, o sentimental western clássico dirigido por John Ford em 1948 (John Wayne é um dos três fora-da-lei que cuidam de um bebê órfão), este filme é uma tocante fábula sobre a persistente decência e a sobrevivente ternura entre seres excluídos, agregando ainda vestígios daquela veia humanista do cinema iluminado de Charles Chaplin e Frank Capra.
  Véspera de Natal. Três sem-teto perambulam por uma Tókio gelada - o alcoólatra Gin, o travesti e homossexual Hana e a adolescente fugitiva Miyuki. Em meio ao lixo, eles encontram um bebê abandonado. A partir daí, e ao longo de uma aventura repleta de alternativas e ‘‘milagres’’ em busca da mãe da criança, o trio vai encontrar também pedaços de suas histórias, trechos de suas vidas que tinham desaparecido pelo caminho ou estavam apenas anestesiados pela dor. A busca, na verdade, envolve o quarteto: juntos por todos os cantos da cidade e às vezes também apartados uns dos outros por conta das peripécias, desde logo fica claro que a procura empreendida é tanto pela felicidade da pequena quanto pela deles mesmos.
  Entre outras qualidades, o que particularmente deve se louvar no roteiro de Satoshi Kon é a capacidade de elaboração de um simples, meridiano filme político sobre realidade econômica e alienação social. Ao mesmo tempo, ele seduz o espectador com a crença no poder do amor como elemento capaz de resgatar a beleza que se esconde no cotidiano muitas vezes cinzento das pessoas. A comédia também comparece, até como elemento de distensão numa trama não raro crispada, com seqüências de violência gráfica.
  Há aqui um potencial de dramaturgia que poderia facilmente ter escorregado pela pieguice mais deslavada, o que não ocorre em nenhum momento graças ao ritmo inventivo, não raro alucinante da narrativa. E também como resultado do estilo cool da direção, privilegiando quase que obsessivamente o detalhe visual - nenhuma dúvida, Satoshi Kon ama sua cidade, Tóquio, que ganha vida e se transforma em personagem vital para amarrar com laços fortes esta bela história de redenção.

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