Aos 18 anos, Caetano Veloso foi crítico de cinema. Não tem muito apreço pela categoria. Talvez não tenha pelos críticos em geral. Não perdoa o que escreveram e ainda escrevem sobre Chico Buarque de Hollanda, sobre seu filme ''O Cinema Falado''. ''Não perdôo a burrice'', explica. Caetano, como outros artistas, pode ser megalomaníaco, mas sabe o filme que fez. Diz que ''O Cinema Falado'' é produto da sua lucidez. Não está mentindo. Espera, 17 anos depois, que ''O Cinema Falado'' finalmente encontre o reconhecimento que merece.
Caetano estava com a macaca, num encontro com jornalistas nos estúdios da Universal Music, no Rio de Janeiro. ''O Cinema Falado'' está sendo lançado em DVD pela gravadora, que fez todo um trabalho de recuperação da imagem e do som, a partir do internegativo original. Ao próprio filme, somaram-se três horas de material extra, incluindo clipes, entrevistas com atores e técnicos, comentários do próprio diretor, cena a cena. Caetano esperou tempo demais para soltar o verbo. Sempre amargou a rejeição dos críticos a seu filme. ''Disseram, na época, que 'O Cinema Falado' só não passou em brancas nuvens porque fui eu que fiz. Esse filme?'' aponta o telão no qual os jornalistas acabam de ver, em DVD, a versão restaurada de ''O Cinema Falado''. ''O filme só não obteve reconhecimento porque fui eu que fiz. Tentaram colocar todas as nuvens na minha frente, mas eu resisti.''
Logo na abertura, ''O Cinema Falado'' é definido como um filme de ensaios. Caetano sempre quis fazer um filme, desde que, menino, descobriu o cinema em Santo Amaro da Purificação. Teve várias idéias, que não desenvolveu. E aí lhe vieram duas uma frase que ouviu de Noel Rosa, cantado por Aracy de Almeida (''O cinema falado/ foi o culpado da situação''), à qual se superpôs a impressão que lhe causou o romance de Guillermo Cabrera Infante, ''Três Tristes Tigres''. O livro é feito só de monólogos. Caetano achou que seria interessante fazer um filme só de monólogos, também, para expressar suas idéias sobre arte e vida, sobre cinema, em particular. Ele escreveu todos os monólogos, com exceção do de Rogério Duarte e a improvisação de Regina Casé sobre Fidel Castro. Filmou-os, tanto quanto possível, com take único.
Seu filme de ensaios é lúcido e provocativo. Possui momentos deslumbrantes - Caetano assobiando o tema de ''A Estrada da Vida'' (''La Strada''), de Federico Fellini, diante da igreja de Santo Amaro, até voltar-se para o fotógrafo, Thomas Farkas, e gritar, ele próprio, ''Corta!''; seu irmão dançando; a cena magnífica com a pedra que roda e cria deformações plásticas sobre a bandeira do Brasil. ''O Cinema Falado'' é mais cinema de poesia do que muita coisa que foi exibida (e valorizada), com este rótulo, no recente Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme é feito só de falação. De quebra, apresenta números dançados. A unidade vem dessa importância atribuída à palavra, ao Verbo, que Caetano usa de forma consciente.
Ele lembra que a maior vaia que o filme tomou, na estréia, no Rio, foi na cena em que ataca ''Paris, Texas'', de Wim Wenders, dizendo que é um dramalhão mexicano narrado com fotografia hiper-realista, no estilo alemão que também critica na nazista Leni Riefenstahl. ''Os negros que ela fotografou na África parece que foram pintados com laquê. As imagens dela e do Wenders têm excesso de chroma.'' Lembra da gritaria de Arthur Omar na sala que exibiu ''O Cinema Falado'' pela primeira vez, dizendo que aquilo era a apropriação da vanguarda que ele fazia há dez anos. ''Coitado'', diz Caetano. E acrescenta. ''O livro de fotografias dele, o da Face (''Antropologia da Face Gloriosa''), tem imagens bonitas; o que estraga é aquele texto.'' Caetano não poupa nada nem ninguém. ''Veja'' e a ''Folha de São Paulo'' são chamadas de ''abominações''. Acusa de ''má fé'' o crítico do ''Globo'' que fez a resenha do DVD. Remexe no baú da memória e tira de lá um velho ressentimento contra Suzana Amaral, que disse, há 17 anos, que não tinha visto nem ia ver ''O Cinema Falado'', mas era contra e achava que Caetano não devia se meter com cinema, como ela não se metia com música. Essa coisa de cada macaco no seu galho não serve para Caetano.
Muita coisa do que o filme diz sobre o cinema brasileiro revela-se profética. Caetano discute a questão da língua. O português brasileiro, afinal, é uma língua de cinema? No filme, ele analisa, por meio das pessoas que dizem seus textos, os diálogos nas novelas e nos filmes nacionais e antecipa que o público vai falar a língua do cinema brasileiro. É o que está ocorrendo neste ano em que a produção nacional participa com 20% da ocupação do próprio mercado, um recorde desde o início da retomada, no começo dos anos 1990. Não é o único signo de atualidade de ''O Cinema Falado''. Caetano lembra que seu filme foi lançado simultaneamente com o de Denys Arcand, ''O Declínio do Império Americano'', do qual gostou muito, e é lançado agora em disco digital no momento em que Arcand volta ao circuito com a sequência de seu clássico, intitulada ''As Invasões Bárbaras''. Desta vez, Caetano, sensatamente, não gostou muito. É um bom filme, mas dilui melodramaticamente, por meio de conflitos familiares, a intensidade dos monólogos críticos do ''Declínio''. Ele acha uma facilidade, não concorda com a tentativa de aproximação do declínio do império romano com o atual império americano. ''São grandezas diferentes, uma não explica a outra.''
Considera o cinema, até certo ponto, um luxo. Diz que filma pelo sonho, não pela realidade, o que possibilita uma discussão sobre o Brasil atual. Caetano acha um tanto exagerada a simpatia com que o País é visto, hoje, pelos remanescentes da esquerda mundial. Diz que isso se deve mais à necessidade de manter vivo o velho sonho do que a outra coisa qualquer. Internamente, o governo Lula tenta mostrar que não é de esquerda e alguns de seus membros até exageram, dizendo que nunca foram de esquerda. Há muito desemprego, muita miséria. A caminho do estúdio, crianças carentes e aleijados lhe pediram ajuda. ''Ao contrário de muita gente, paro o carro, converso. Dou ajuda. Sou favorável à caridade.'' É menos favorável ao conceito de Deus. Em seu nome praticam-se atrocidades sem fim. Caetano é contra.
De volta ao assunto do governo Lula, Caetano diz que muita coisa já mudou nestes 11 meses, mas é preciso mudar muito mais. O Brasil pode estar no fome zero, ele não está, nunca esteve. Mesmo quando critica o governo, poupa o amigo Gilberto Gil. ''Ele deu uma projeção e uma importância ao Ministério da Cultura, como nunca teve antes. E ainda não precisei brigar com ele, em defesa da cultura brasileira.'' Suas idéias de estética prestam-se à discussão. Ataca os acadêmicos da USP que elogiam ''Cronicamente Inviável''. Abomina o filme de Sérgio Bianchi, que considera ora malfeito, ora coisa de paulista. ''É um Diogo Mainardi piorado.'' Aproveita para dizer que leu os dois romances de Mainardi. ''São ruins'', faz cara de pouco caso. Mainardi é um subproduto de Paulo Francis. Lembra Glauber Rocha, que esculachava o mito de Francis, com seu americanismo deslumbrado. Acha que o Brasil dos livros de Mainardi, do filme de Bianchi é esse País sob medida para alimentar e criticar o mito da eterna cafajestagem do brasileiro, a nossa condição de cultura periférica. Caetano não entra nesta.
''Sou lúcido'', diz. ''O Cinema Falado'' é o produto de sua lucidez. ''Tenho responsabilidade de que pertenço ao Brasil de Machado de Assis, de Chico Buarque, não desses caras.'' Como se trata de uma coletiva, alguém pergunta, provocativamente. O Brasil de Fernando Mendes, também? Caetano defende o compositor de ''Você não me Ensinou a te Esquecer'', tema de ''Lisbela e o Prisioneiro''. ''Agora/Que faço eu da vida sem você?'' Os críticos podem achar brega, mas ele poucas vezes recebeu tanto carinho do público de todas as idades, de todos os segmentos sociais. Compara com Roberto Carlos. ''Hoje, é mamão com açúcar elogiar o Rei. Quando começamos a fazer isso, anos atrás, fomos muito criticados'' (''nós'' engloba seus parceiros de tropicalismo). Sua entrevista vai repercutir, os ataques aos críticos, a diretores e a órgãos da grande imprensa com certeza terão réplica e tréplica. Está tranquilo: ''Não disse nada que não seja equilibrado ou sensato.''

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