DVD REABILITA CINEMA SOVIÉTICO
Cada diretor tem a sua própria definição para o que é o cinema. Godard acredita que é a verdade em 24 quadros por segundo. Humberto Mauro o definia com a simplicidade mineira, é cachoeira. Já o outsider Nicholas Ray, autor de Juventude Transviada, pensava a sétima arte como a melodia do olhar.
Entretanto, apesar dessa diversidade, grande parte dos cineastas concorda que a essência da linguagem cinematográfica se fundamenta em um processo: o da montagem. Mais que sedimentar um discurso, ou fundar uma linguagem, a escola de vanguarda que surgiu na então União Soviética do início dos anos 20 entrou para a história do cinema pelos seus experimentos em relação à montagem.
A Continental Filmes, uma das poucas distribuidoras (ao lado da Cult Filmes e da Funarte) que se preocupa em resgatar clássicos esquecidos, está lançando um pacote formado por 14 DVDs desse período áureo da cinematografia soviética.
São 15 títulos e, com exceção de Um Homem com uma Câmera(1929), de Dziga Vertov (1996-1954), lançado pela própria Continental no ano passado, todos são inéditos em DVD no País. Os filmes de Serguei M. Eisenstein (1898-1948) são os mais conhecidos: A Greve(1924), Encouraçado Potemkin(25), Outubro(27), Ivan o Terrível(44), Ivan o Terrível Parte 2(45-48) e Alexandre Nevski(38). De Vsevolod Pudovkin (1893-1953) há os clássicos A Mãe(24) e Tempestade sobre a Ásia(28). Do último dos gênios russos, Andrei Tarkovski (1932-1986), será lançado Andrei Rublev(66), sua segunda obra. E três raridades absolutas, pouco conhecidas até pelos grandes cinéfilos. Réquiem a Lenin(34), de Vertov, a ficção científica Aelita(24), de Yakov Protazanov e Eu Sou Cuba, de Mikhail Kalatazov.
São todos filmes raros, que possuem muito das teorias criadas pelos russos no começo do século passado. Eisenstein acreditava que o processo de montagem era inerente ao ser humano. Em seu livro A Forma do Filme, ele elaborou teorias que demonstram a montagem usada em nosso dia-a-dia de maneira inconsciente. O cineasta recorre à memória humana para reforçar seus argumentos. Quando lembramos, selecionamos imagens de algum fato real ou imaginário e criamos uma sequência de imagens em nossa mente. Essa sequência, que segue uma certa lógica e ordenamento, é a mesma montagem que um cineasta faz das imagens que filmou. Não seria então o mesmo processo?, indaga Eisenstein.
Outra de suas descobertas se refere à presença da montagem até quando estamos a ler algo. Ele cita um trecho do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, em que o autor narra duas histórias simultâneas que se complementam dramaturgicamente. A sensação do leitor ao assimilar tal trecho é o mesmo de alternar de uma imagem para outra, processo que se tornou comum na linguagem cinematográfica. Comprova assim Eisenstein as afirmações que outro gênio, Stanley Kubrick (1928-1999), faria sobre o cinema. Para o criador de Laranja Mecânica, no cinema, os diálogos vêm da literatura, a iluminação vem da pintura, a trilha sonora é música, e as interpretações vêm do teatro. O que seria único do cinema? A montagem.
Eisenstein era marxista e chegou à conclusão de que o cinema, como arte revolucionária, deveria organizar imagens na consciência e nos sentimentos do público. Para isso, deveria iniciar-se por uma tomada de posição diante dos processos da montagem. O cineasta então criou uma teoria que pretendia justapor duas imagens para formar uma terceira no inconsciente do público. Pudovkin foi outro grande teórico, considerando a montagem como lei absoluta. Fundamentou a sua estética em processos como a câmera lenta e a aceleração da imagem, renegando muito da importância do ator. Seu clássico A Mãe é um exemplo eficaz de tudo que teorizou. Já Vertov, que versava sobre o cinema-olho, tem neste pacote realizações sublimes do que pensava em seus escritos. Um Homem com uma Câmera é a síntese, talvez, da relação do homem com um dos meios mais expressivos de que podemos usufruir a comunicação por meio de imagens, o cinema.
Não pense o leitor que só poderá assistir a estes DVDs em tela pequena. A mostra Cinema Revolucionário Soviético de Eisenstein a Tarkovsky, organizada pela Continental, deve vir ao Paraná. O diretor de programação e responsável pela mostra Eduardo Beu revela que existe a intenção de trazer essa seleção de filmes soviéticos para Curitiba, na Cinemateca: Vou conversar com o pessoal da Cinemateca, pois a minha vontade é de que a mostra não fique restrita a São Paulo. Quero levar para outras cidades, como Belo Horizonte e Curitiba. Beu é responsável pelo ótimo trabalho que a Continental tem realizado nos mercados de vídeo e DVD. Em dez anos, a distribuidora paulista já lançou pacotes temáticos sobre Orson Welles, Ingmar Bergman, Ed Wood, Surrealismo, Dadaísmo, Carl Theodor Dreyer, Charles Chaplin, Abel Gance, Frederic Wilhelm Murnau e Ernst Lubistsch, entre outros grandes do cinema mudo. É um trabalho pouco reconhecido pelo público, mas que tem uma função educativa similar ao de uma biblioteca, preservando os grandes clássicos para a posteridade.
Beu conta que, desses 14 filmes, ficou muito feliz em conseguir encontrar Eu sou Cuba de Kalatazov, a grande atração do pacote. Ele não tinha visto o filme, só tinha ouvido falar em alguns livros, e pediu para os procuradores da Continental comprarem os direitos autorais. No entanto, muito desses filmes soviéticos foram bancados pelo governo, e após a derrocada do socialismo, os filmes passaram ao domínio público. O organizador diz que não está lançando o pacote em vídeo pois tem de estar antenado com a realidade, e hoje, a realidade é o DVD. Cerca de 90% do que lançamos é neste formato. Para o próximo ano deve trazer Terra de Dovjenko, A Infância de Ivan, primeiro filme de Tarkovski, e algumas preciosidades de Akira Kurosawa. É esperar para ver.





