Em ''O Legado de Oz'', um dos vários documentários incluídos na edição especial em DVD de ''O Mágico de Oz'' que acaba de chegar às lojas, alguns cineastas falam das influências que sofreram e especulam sobre as razões da perenidade do filme.
John Waters, por exemplo, vê em ''Oz'' um ''cult movie'' e diz ser ''a única pessoa no mundo que não entende como Dorothy quer voltar para casa''. Peter Jackson se diz fascinado pela criação de um universo visual único, hipnotizante. Seus depoimentos resumem bem a forma como esse clássico de 1939 é visto mais de 60 anos depois de sua estréia: um objeto de culto gay, pérola ''camp'', ou clássico hollywoodiano típico, marco de uma linha de produção que hoje está mais viva do que nunca nas séries ''Senhor dos Anéis'' e ''Harry Potter''.
''O Mágico de Oz realmente pode ser visto como um precursor dos filmes de fantasia de hoje, mas o entretenimento mudou muito e acho que o que garante sua sobrevivência é justamente naquilo que o gênero não oferece mais: um ritmo cadenciado, belas canções e uma emoção contagiante'', diz John Fricke, pesquisador contratado pela Warner para supervisionar a edição do DVD.
Essa nova versão é fruto de mais de seis meses de restauração digital. Como o filme nunca deixou de ser visto, principalmente na televisão (exibições na véspera do feriado de Ações de Graça se tornaram tradição nos Estados Unidos), quase todo seu material original foi preservado feito raro mesmo em Hollywood. ''Encontramos os negativos originais necessários para reconstituir o technicholor'', explica Rob Hummel, coordenador dos trabalhos.
Rob garante que não caiu na tentação de limpar o filme em excesso, alterando o original, como aconteceu em restaurações recentes. ''Trabalhamos para retirar camadas de sujeira que nos impediam de ver a imagem como ela era na época, mas nos recusamos, por exemplo, a apagar os fios que suspendem a bruxa ou a cauda do leão '', conta.
Mesmo o som, que ganhou uma versão remasterizada em seis canais, pôde ser reconstituído em Dolby Stereo porque havia sempre entre cinco e sete microfones no estúdio e quase todo o material foi encontrado. Ainda assim, quem quiser pode assistir à versão em mono, disponível no disco.
Uma das surpresas do DVD está na franqueza do documentário sobre os bastidores. Na voz suave de Angela Lansbury, alguns detalhes impressionantes são revelados, como a história da substituição de Buddy Ebsen, que faria o Homem-Lata, mas foi gravemente contaminado pelo pó de alumínio usado na maquiagem. ''Certo dia, tentei respirar e não consegui mais'', diz o ator, que ficou meses no hospital e quase morreu.
Enquanto preparava a substituição de Buddy Ebsen por Jack Haley que não foi informado dos motivos do afastamento do primeiro ator , o produtor Mervin LeRoy, insatisfeito com o material filmado até ali, demitiu o diretor Richard Thorpe. George Cukor passou pelo set e foi o responsável pela mudança de visual de Judy Garland como Dorothy, retirando seus cachos louros e o excesso de maquiagem. Em seguida entrou Victor Fleming, que dirigiu quase todo o filme, mas precisou largar os trabalhos quando foi convocado para aplacar a crise no set de ''E o Vento Levou'', substituindo... George Cukor.
King Vidor acabou terminando ''O Mágico de Oz'' e foi o responsável, inclusive, por toda a parte do Kansas, incluindo o número musical ''Over the Rainbow''. Mas só Fleming levou crédito.
Outro momento impressionante mostra Judy Garland já com o rosto envelhecido falando dos anões que interpretavam os Munchkins. ''Bêbados'', ela diz.
''O Mágico de Oz'' custou exorbitantes US$ 2,6 milhões na época em que foi feito, que não se pagaram imediatamente. O filme teve um resultado imediato bem abaixo do esperado e só quando foi relançado, dez anos depois, encontrou retorno financeiro. Mas o filme está aí até hoje. Como estará Harry Potter daqui a 60 anos?

Serviço:
- O Mágico de Oz. Distribuidora: Warner Home Video. Quanto: R$ 99, em média.

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