O que é mais surpreendente na narrativa de ''Longe Dela'' é saber como as co-roteiristas Lice Munro (autora do conto original) e Sarah Polley (aqui também estreando na direção) conseguiram desenvolver um conflito amoroso num universo que a princípio se julgaria improvável e mesmo árido para as paixões românticas.
Amor é o grande tema deste argumento. Qualquer iniciado em teoria e prática amorosa sabe que há amor de toda sorte - e entre as muitas formas de amar há o amor e o esquecimento. ''Longe Dela'' fala sobre isto, amor e esquecimento.
Fiona (Julie Christie, Globo de Ouro de melhor atriz, entre outros 16 prêmios por esta interpretação) está recém-chegada à velhice. Começa a perder-se a si mesma. Com o Alzheimer ela está ficando sem a fala e a geografia de sua casa, sem o cheiro da pessoa que ama e sem este universo de memórias em que estava fundada a vida a dois. Mas ''Longe Dela'' não é um filme de amor de velhos. Ou para velhos. Que os protagonistas estejam na terceira idade é circunstancial. O que interessa aqui é essa contingência de sabor agridoce na qual estão fundamentadas as delícias e as dores do amor: a sua fugacidade.
Assim, a perda de memória de Fiona é a alegoria deste momento pelo qual todos passamos, esquecendo ou sendo esquecidos. É interessante notar que, embora Fiona sofra de uma doença que se manifesta na perda da memória, o amor sobrevive nos sinais, nas marcas deixadas por seu marido Grant (Gordon Pinsent). E emerge por entre as ruínas de sua mente como uma espécie de Vênus, como o corpo de uma amante que se despe.
Há o triângulo amoroso e todos os elementos de uma comédia amena: o amante de coração partido e a enfermeira confidente que orienta o protagonista que está sofrendo por um amor que desmorona. Mas para além deste conflito, o filme demonstra que, em matéria de amor, não existe nada garantido. Justamente por isso é que se coloca subliminarmente em cena um dos muitos paradoxos deste sentimento: como desejar a felicidade do ser amado quando isto se opõe à nossa própria felicidade? É aqui que se encontra a trajetória de Grant, o marido. No caminho longe de Fiona, ele terá que deixar-se a si mesmo. E embora doa, e muito, há que buscar a felicidade para ela.
É possível que a solução ética encontrada pelos amantes neste precioso filme canadense deixe de cabelo em pé aqueles que defendem o amor como uma forma de ''dever ser''. Haverá quem diga: ''Mas isto não é amor!''. Amor, dizia um filósofo maldito, é em si mesmo uma tautologia, uma redundância, um pleonasmo. Por que amo você? Porque amo você. Ponto. Não há outra resposta. O amor é um pouco como o sofrimento: sofrer também significa mudar, e mudar também significa distanciar-se um pouco de si mesmo, daquele que éramos e queríamos quando tínhamos outra idade.

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