DVD - Para ver e ouvir Milton Nascimento
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de agosto de 2004
Adriana Del Ré<br> Agência Estado 
Um homem repleto de composições tocantes, boas histórias e grandes amigos. A vida e obra de Milton Nascimento são, por si só, farto material para qualquer documentarista interessado em perpetuar uma faceta da música brasileira. Os diretores Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor arcaram com essa responsabilidade, em 1997, gravando o especial ''A Sede do Peixe'', e conseguiram um belo registro documental. Exibido nos canais HBO e Multishow, o especial está sendo lançado agora em DVD, com distribuição da EMI. Uma produção da Conspiração Filmes, Nascimento Música, Tribo Produções e HBO Brasil, ''A Sede do Peixe'', em versão DVD, traz as imagens veiculadas na TV, acrescido de material inédito que ficou de fora da edição. ''O DVD dá mais liberdade em termos de tempo, o fã pode aproveitar o material e assisti-lo com mais cuidado'', diz Lula. Nos extras, há trechos de entrevistas não aproveitadas, tomadas das eloquentes paisagens mineiras, curiosidades relacionadas às influências musicais de Milton.
Feito para a TV, mas em linguagem cinematográfica (rodado em 16 milímetros), ''A Sede do Peixe'' defende a tese de que a musicalidade de Milton Nascimento provém de suas ligações familiares e sentimentais com Minas. Nascido no Rio, o compositor foi para a cidade mineira de Três Pontas, mal saído das fraldas, levado pelos pais adotivos. Bebeu na fonte da cultura afro local, teve contato com as manifestações folclóricas (como os cortejos do grupo Catopês), descobriu a magnitude dos tambores mineiros. Sua bela voz sempre atraiu as atenções dos moradores da cidade. Ele próprio tinha consciência de seu talento e garoto se lançou na carreira de crooner. Adolescente, se juntou a Wagner Tiso e ao grupo Luar de Prata e, mais tarde, com Tiso, integrou a banda W'Boys.
''A Sede do Peixe'' não se aprofunda nesses primórdios da carreira de Milton. Não escapam à produção, no entanto, as influências regionais do músico, o papel que ele desempenhou para que os olhares se voltassem à música mineira, a importância de Elis Regina em sua carreira, o resgate do Clube da Esquina, e por aí vai.
Os diretores do documentário trataram de reunir Milton com outros membros do Clube, como Beto Guedes, Lô Borges, Fernando Brant e Tavinho Moura. Entre conversas informais, o grupo relembra episódios em comum e velhas canções, incluindo ''Para Lennon e McCartney'', ''Clube da Esquina nº 2'', ''Um Girassol da Cor do Seu Cabelo''.
Para Milton, todo esse material não poderia ficar guardado. ''Há coisas inéditas, como a participação das pessoas, a minha mãe falando'', explica o compositor, em entrevista por telefone, da Itália, durante turnê pela Europa. Além dos companheiros de Clube da Esquina, há uma constelação de convidados, chamados também para cantar com Milton e bater papo com ele. A cantora Alaíde Costa faz uma emocionante aparição na música ''Me Deixa em Paz'', ao lado de Wagner Tiso.
Caetano Veloso faz duo com Milton em ''A Terceira Margem do Rio''. O grupo mineiro Skank (cuja musicalidade carrega influências do Clube da Esquina) aparece em ''Viola Violar''. Alcione empresta cadência à ''Circo Marimbondo''. Elis Regina é recordada em ''Canção do Sal'', composição que Milton não gostava, escondeu da cantora até o último minuto durante um processo de seleção de músicas dele, lhe mostrou meio displicente e que ela adorou de paixão.
Carlinhos Brown engrossa o time de participações, em ''Samba Lelê'' e ''Cravo e Canela''. Meio em tom indignado, Milton conta que, na época das filmagens, Brown propôs para a produção uma performance dos dois nus, mas foi vetado. ''Fiquei bravo, porque ninguém me consultou'', diz. ''Eu ficaria nu.'' Difícil imaginar o compositor, famoso pela timidez aguda, despido de roupas e de qualquer pudor. Carolina Jabor confirma a proposta feita pelo músico baiano, mas desconversa. ''Foi o cenário de estúdio, aquele local mágico, que instigou Brown a ter aquele comportamento.'' O filme foi rodado entre Minas e Rio.
Milton aproveita para lançar também o CD das trilhas sonoras de balé, ''Maria Maria'' (1976) e ''Último Trem'' (1980), primeiros trabalhos do gênero do compositor feitos para o Grupo Corpo.


