Nos extras do DVD ''Mutantes ao Vivo'', há um ensaio em São Paulo em que Zélia Duncan veste uma bata ultracolorida, enquanto os irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista estão de chapéu e indumentária anticonvencional.
Pula-se no menu para o show, gravado em 22 de maio de 2006 no Barbican, em Londres, e o que se vê é um palco preto, roupas pretas - com exceção da camisa salmão de Arnaldo, quase oculta sob o casaco -, um quadro gótico que pouco lembra a iconografia psicodélica criada nos anos 60 e 70 pela maior banda brasileira.
O contraste não tem nada de casual. Basta ver o que Sérgio diz no documentário de incluído no DVD: ''O barato era justamente não ser igual. Os Mutantes não podiam voltar exatamente como eram''.
Nem faz muito sentido pensar se existe um visual falso e outro verdadeiro, pois os Mutantes sempre fizeram jus ao nome do grupo e nunca pararam de mudar. A pergunta que importa é: Sérgio, Arnaldo e o baterista Dinho Leme são ''velhinhos espertos querendo juntar dinheiro para pagar o geriatra'', como ironizou Rita Lee? A resposta é não.
Assim como há uma penca de motivos pessoais e musicais para Rita não voltar aos Mutantes, há outra penca dos mesmos motivos para Sérgio Dias e Arnaldo Baptista ressuscitarem a marca.
Eles foram fundo em drogas, amores, brigas, experiências sonoras, viram o lado A e o lado B da música, mas nunca deixaram de ser (para eles e para os outros) Mutantes. ''Eu sabia que não tinha nenhum esqueleto no armário'', diz Sérgio no documentário. E completa: ''Deixar as coisas permanecerem como estavam seria uma estupidez''.
Estupidez não seria, pois a história deles já está escrita, mas o DVD mostra aspectos que afastam a suspeita de uma farsa. Um deles é a alegria que os irmãos demonstram no palco - as brincadeiras que fazem em ''Cantor de Mambo'' são o melhor exemplo. A felicidade ao poder interpretar juntos ''Ando Meio Desligado'' é outro destaque. Outro é a qualidade do que fazem. Arnaldo, mesmo sentadinho em seu banco e sem produzir efeitos mirabolantes, mostra pleno domínio dos teclados e ainda canta em várias músicas.
Já Sérgio prova, mais uma vez, que é um dos maiores guitarristas do mundo. Ainda exibe humor e extensão quando canta -''Balada do Louco'' é seu grande momento. E Dinho é o coração da banda, não parecendo que estava há três décadas sem pegar nas baquetas.
Em Zélia Duncan deve-se elogiar, antes de tudo, a discrição. Embora no meio do palco, atua como coadjuvante dos irmãos e evita ao máximo alusões a Rita Lee. Estas aparecem aqui e ali no uso de pequenos instrumentos de percussão e no esforço (bem-sucedido) de alcançar as notas agudas em músicas que não tiveram o tom alterado em função de sua voz grave. É o que acontece em ''Top Top'' e ''Dois Mil e Um'', por exemplo. Já em ''Baby'' ela fica à vontade.
O repertório de 21 músicas se vale da verdade drummondiana: deixou de ser moderno para ser eterno. Ninguém vai se chocar mais com as iconoclastias de músicas como ''Dom Quixote'', ''Ave Lucifer'', ''Cabeludo Patriota'', ''Bat Macumba'' - com a participação no coro de Devendra Banhart e Noah Georgeson - e ''Panis et Circenses'' (inferior na versão em inglês). Mas tudo continua muito bom, ainda mais interpretado pelos inventores.
''Para reconstruir, tem que demolir antes'', ensina Arnaldo no DVD. Se vier, o disco de inéditas prometido para 2007 mostrará se estamos presenciando uma alegre e muito bem feita troca de figurinos ou uma fantástica reconstrução.

Serviço:
- Mutantes ao Vivo. Artista: Mutantes. Lançamento: Sony BMG. R$ 49,90 (DVD) e R$ 54,90 (CD duplo)

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