Todos os anos, em outubro, quando os editores de todo o mundo se ajoelham voltados para Frankfurt, a pergunta vem à tona: até quando a cidade alemã será a ‘‘meca’’ do mercado editorial? Amanhã, quando começar a 52ª edição da Feira de Livros de Frankfurt, a questão volta a circular pelos 200 mil metros quadrados que fazem deste evento o maior do universo dos livros.
A julgar por pesquisa divulgada este fim de semana pela página na Internet da maior revista européia sobre o mercado editorial, a inglesa ‘‘The Book Seller’’, a cidade natal de Johann Wolfgang von Goethe pode perder a majestade.
‘‘O mercado editorial precisa da Feira de Livros de Frankfurt?’’, perguntou a ‘‘The Book Seller’’. Para 22% dos editores, agentes e escritores que participaram da pesquisa, a resposta foi não. ‘‘Sim’’ recebeu o mesmo número de votos. ‘‘Não sei’’, com 44% da enquete, ganhou fácil.
‘‘A Feira de Frankfurt é a crônica da morte anunciada. Mas essa morte todo ano é adiada’’, disse Paulo Rocco, da editora que leva seu sobrenome.
Do lobby do hotel Frankfurter Hof, emblema do status de badalações e grande leilões de direitos autorais que a feira tinha até a era da Internet, Rocco disse: ‘‘A Feira de Frankfurt deixou de ter a grandiosidade e o glamour que tinha no passado. Mas os editores do mundo todo estão aqui, circulando nesse lobby’’.
E aí está a grande vocação atual da feira. Se antes era em Frankfurt que todos os grandes negócios eram fechados, agora eles são feitos nas caixas de entrada e saída de e-mails das editoras.
‘‘Na prática o que corre pra lá e cá é o e-mail. Os negócios são fechados durante todo o ano. As feiras, cada vez mais, são momentos em que as pessoas olham nos olhos das outras, mantêm contatos’’, explica o presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Raul Wassermann.
Essa também é a tônica do discurso de Lorenzo Rudolf, que este ano dirige pela primeira vez a Feira de Frankfurt, depois de 25 anos do reinado de Peter Weidhaas.
‘‘Essa feira do livro é o lugar para um encontrar o outro, trocar novidades e opiniões. Havia um nome simples para isso na Grécia: a ágora. Não é por acaso que a antiga ágora, a praça pública grega, também era situada em um centro comercial’’, explica o diretor.
Em vez de centrar artilharia na Internet, que tirou a grande aura de ‘‘fogueira das vaidades’’ que Frankfurt tinha, Rudolf resolveu pôr fichas no mercado virtual. Um emblema disso é que na feira alemã o livro eletrônico, o e-book, ganha pela primeira vez posição privilegiada nas estantes. Na próxima sexta, será anunciado, no prédio da Ópera de Frankfurt, o resultado do primeiro E-book Award, que dá US$ 100 mil para o melhor livro produzido para tela de computador.
Essa ‘‘eletronicalização’’ do mercado literário também se reflete na análise do que os 6.643 expositores (42 deles brasileiros) vão levar para Frankfurt. ‘‘Um quarto deles já traz ou CD-ROMs, ou livros eletrônicos, ou apresentação de sites’’, diz Rudolf.
Ex-diretor da prestigiada feira de arte suíça ‘‘ARTBasel’’, Rudolf incrementou o visual não apenas da página na Internet da feira.
Além de organizar três exposições sobre a relação das artes com os livros e uma mostra sobre história em quadrinhos, Rudolf diz que o grande impacto visual será a exibição do país homenageado este ano, a Polônia.