O escritor argentino Jorge Luís Borges dizia que o valor de uma obra de arte é tanto maior quanto maior forem suas possibilidades de leitura e interpretação, não se fechando em uma só mensagem, contexto ou comunicação, nem se direcionando em apenas um sentido. Se a obra se abre para a produção de maior número de sensações, se desperta mais imaginação, se sensibiliza e toca mais as percepções, fatalmente sua riqueza e qualidade vem do fato de estar próxima da vida e de todo o caos e contradição que ela está sujeita.
E se esbarrássemos o tempo todo em trabalhos tão profundamente elaborados, nosso juízo em relação à arte seria de tal modo diverso, que seríamos nós mesmos também arte, mergulhados em tal universo.
Mas uma vida artística é uma vida trágica. Trágica no sentido em que não é comandada pela lógica e sim pelas sensações. Trágica no sentido de enfrentar o tédio, a angústia e o desespero que as crises provocam, como partes integrantes da existência. Trágica porque quer viver intensamente cada instante, sabendo que é único. Pois a tragédia marca a eterna passagem daquilo que não se detém.
A utopia de uma vida feliz, em que o lobo e o cordeiro convivem no mesmo jardim das delícias, em que o mal foi exterminado pelo bem, a dúvida pela certeza, a ilusão pela verdade, só pode ser veiculada por aqueles que preferem se manter anestesiados, sem responsabilidades por seus próprios destinos e entorpecidos de antidepressivos diante da angústia que a incerteza traz, inaugurando crises que, em última instância, nos é revelada como desafio, que nos atinge para que seja superada. Sem a crise, jamais poderíamos gozar da dúvida, jamais teríamos arte e filosofia potentes, seríamos somente seres fazendo discursos e reclamando da vida diante das privações. ‘‘Da adversidade vivemos’’ é o que está escrito em um dos parangolés do artista Hélio Oiticica.
Endeusar a dúvida, incorporar as incertezas, aceitar a ambiguidade, eis aí nossos maiores compromissos. O mal não existe sem o bem, assim como a queda pressupõe a ascensão e o princípio criativo gera o princípio destruidor. No meio deles, há a arte, assim como entre a vida e a morte, existe o amor.
Lygia Clark, que soube viver intensamente sua passagem, que sabia seu lugar neste mundo, disse que ‘‘...as pessoas são e sempre serão vulneráveis a outra crise provocada pela experiência de novas percepções’’. Pois a arte se abre, cada vez mais, nesta direção. Como algo perturbador que jamais poderá ser lido, interpretado ou visto como verdade absoluta, mas apenas vivido, onde sua grande possibilidade é a dúvida, com toda certeza.
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