São Paulo, 30 (AE) - Pode-se dizer que são essas duas duplas de irmãos falsos, os Chemical Brothers e os Dust Brothers
que dão as coordenadas para o que de mais moderno se faz em música eletrônica atualmente. Os ingleses do Chemical Brothers encantam nas pistas de dança. Os americanos dos Dust Brothers fazem miséria principalmente em estúdios e nos bastidores. É difícil ver a cara deles em revistas e mesmo na Internet.
É dessa última dupla a trilha do filme mais polêmico da temporada, "Clube da Luta", de David Fincher, que chega agora às lojas de importados. Os Dust Brothers são dois nerds de computadores e eloquentes DJs - Michael Simpson e John King - que estão nos créditos de tudo o que de mais pós-moderno se produziu na música recentemente, como os Beastie Boys, Beck (Odelay) e até os irmãos Hanson.
"Fight Club: Original Motion Picture Score" é sua mais recente investida na seara eletrônica. Criaram os climas perfeitos para o filme de Fincher, uma batida não tão forte quanto os beats costumeiros do gênero, mas com uma grande dose de tensão psicótica - no sentido artístico do termo. Todas as canções da trilha são compostas, arranjadas e produzidas pelos Dust Brothers, à exceção de"This Is Your Life", escrita pelos irmãos e por Chuck Palahniuk, o autor do romance que deu origem ao filme de David Fincher. A voz na música é de Tyler Durden. Tudo foi gravado e mixado em um estúdio de Los Angeles. Só dois músicos participaram: Art Hodge e Charles Goodan.
O CD começa criando bases para a introdução de personagens, como nas faixas "Who Is Tyler Durden?" e "Homework". É em "What Is Fight Club" que a coisa começa a pegar mais forte, com uma batida nervosa, mais seca e espaçada do que as que aprendemos a conhecer da música eletrônica inglesa. Depois, vem a suingada "Single Serving Jack", também diferente e estruturada em dois tempos - uma melodia dentro da outra, que termina com distorções.
"Corporate World", um dos discursos vazios dos personagens de Fincher, ganha um ritmo caribenho sintético, que também se transmuta em algo sombrio no final. "Psycho Boy Jack" vem a seguir, algo como uma marcha neonazista, uma marcação adequada - com scratches de fundo - para essa versão contemporânea da Laranja Mecânica de Burguess e Kubrick.
"Hessel, Raymond K". começa como uma peça onomatopaica
tribal, percussiva, evoluindo até compor um retrato neurótico. A desconstrução é a marca do trabalho dos Dust Brothers. Não há, como na música de seus equivalentes ingleses do Chemical Brothers, o ingrediente do mero entretenimento, a linha de equilíbrio entre o establishment e a invenção. Talvez o que mais se aproxime disso é a canção "Medula Oblongata", com um balanço bem definido. Em "Jacks Smirking Revenge", é possível sentir a evolução de situações na tensão que criam entre contemplação e explosão. Mas há também componentes de humor e sátira. "Stealing Fat" brinca com vazios e silêncios e harmonias disformes, que envolvem até "guitarras" e um heavy primal. "Chemical Burn" é só ruído, dissonância e devastação.
Com a trilha de "Clube da Luta", os Dust Brothers parecem ingressar num território do qual sempre fizeram parte. A associação entre som e imagem os deixa completamente à vontade para criar sua massa sonora.
A confusão inicial entre os Dust Brothers e os Chemical Brothers não foi sonora. Os ingleses também eram The Dust Brothers no início da carreira, mas tiveram de mudar de nome em 1995, para evitar uma confusão jurídica. Recentemente, o jornal "The Los Angeles Times" anunciou que representantes dos dois grupos finalmente passaram a ter um diálogo - eles chegaram a passar dois anos discutindo na Justiça a questão dos nomes.
"Nós encontramos Tom, o loiro", disse John King, da dupla americana. "Ele foi cool e pediu desculpas por ter roubado nosso nome", afirmou. O encontro em Los Angeles foi tão bom que os Dust Brothers até convidaram os Chemical Brothers para remixar uma canção para a trilha do filme "Good Burge". SERVIÇIO - Fight Club - Original Motion Picture Score. Trilha dos Dust Brothers. Importado. R$ 38,00. Studiotan.com.br.

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