Um show modesto, para poucos, traz o deboche e a irreverência de Eduardo Dussek a Londrina. O cantor e compositor carioca apresenta-se hoje no Country Club, por volta de 22 horas, durante a abertura do Congresso Paranaense de Cardiologia.
O show é restrito aos participantes e convidados do encontro médico. Não será desta vez, portanto, que os fãs poderão matar saudades ao vivo de alguns de seus sucessos como ‘‘Nostradamus’’, ‘‘Barrados no Baile’’, ‘‘Rock da Cachorra’’, ‘‘Brega Chique’’- conhecida como ‘‘Doméstica’’ – e ‘‘Aventura (Luz de Velas)’’.
Aos 46 anos, Dussek ameaça voltar ao foco das atenções nesta temporada, quebrando o jejum de quase uma década fora da mídia. Além de lançar um songbook de Carmen Miranda, acompanhado de um CD com interpretações suas para sucessos da cantora, está preparando um novo álbum com canções inéditas e um disco infantil de caráter beneficente.
O songbook, chancelado pela editora Irmãos Vitale, já está à venda nas livrarias em edição bilíngue (português/inglês). A publicação reúne 30 músicas transcritas para a pauta musical com acordes cifrados para violão, guitarra e teclados. Traz também fotos e um texto biográfico assinado por Dussek.
O CD que acompanha o livro ganhou o título de ‘‘Adeus Batucada’’. Destaca 23 sucessos de Carmen e duas composições de Dussek inspiradas na cantora. Na seleção-homenagem figuram ‘‘O que é que a baiana tem’’ (Dorival Caymmi), Ta풒 (Joubert de Carvalho), ‘‘Alô Alô’’ (André Filho), ‘‘Na Baixa do Sapateiro’’ (Ary Barroso) e ‘‘Tico Tico no Fubᒒ (Zequinha Abreu).
Já as duas músicas que compôs são ‘‘ Alô, Alô, Brasil! (gravada por Marília Pêra em 1977) e ‘‘Rap da Carmen’’. No disco, Dussek canta e toca teclados em companhia de Beto Cazes (percussão) e Chico Costa (sax). O CD está à venda também em edições avulsas. A seguir, leia entrevista com o cantor, na qual ele fala de seus vários projetos para 2001.
O show que você traz a Londrina é dirigido para uma platéia específica, não é aberto para o público em geral, mas apenas para os participantes e convidados do Congresso Paranaense de Cardiologia. Como é isso?
Faço esse tipo de espetáculo há muitos anos. São shows fechados feitos sob encomenda para eventos ou encontros organizados por empresas. Entre as músicas, faço piadas e cito coisas relacionadas ao tema do evento. Mas tudo com muito bom humor, porque em geral as empresas carecem de um humor que seja sofisticado e direcionado para o produto delas. Como sou um bom ator, consigo entreter e satisfazer meus clientes. Em Londrina, vou levar um trio. O repertório vai incluir meus antigos sucessos, músicas novas, músicas dançantes de outros intérpretes (chorinhos, músicas de Rita Lee, etc), além de canções feitas para a ocasião.
Esse tipo de show, por ser fechado, acaba não ganhando divulgação...
Já fiz muitos shows assim em São Paulo e no interior. Muitas vezes, as pessoas nem ficam sabendo. Já teve fã que chegou para mim e me cobrou: ‘faz tempo que você não se apresenta em minha cidade’. Mas eu já havia me apresentado ali umas três vezes.
Você está lançando um songbook da Carmem Miranda acompanhado de um CD com interpretações suas para os sucessos dela. Como surgiu esse projeto?
Ele começou em 1992, quando participei de um espetáculo em tributo a Carmem Miranda no Lincoln Center, em Nova York, ao lado da Marília Pêra. Logo em seguida, o Centro Cultural Banco do Brasil do Rio me encomendou um espetáculo para comemorar os 90 anos da Carmen. O sucesso foi enorme, ficou um mês em cartaz e depois foi levado para outras casas noturnas. Era um show engraçado, que mostrava uma visão masculina da Carmen enfocando o repertório dela. Mais tarde recebi o convite da editora Vitale para organizar o songbook. Foi inesperado, porque eu estava envolvido na gravação de um CD com músicas inéditas. Como você vê, a Carmen não sai da mídia e não larga do meu pé.
Você tinha gravado algum sucesso da Carmen em seus discos anteriores?
Não, embora cantasse alguma coisa nos shows. Mas eu conheço bem a trajetória dela e de todos os cantores do rádio. Quando fiz faculdade de Regência e Composição, que abandonei no quarto ano, queria defender uma tese tematizando os arranjos orquestrais dos anos 30 e 40. Estudei muito a música desse período.
E como você vê a música popular brasileira atual? Há talentos novos surgindo? Há qualidade?
Há grandes artistas que poderiam produzir algo melhor e acabam forçando a barra lançando trabalhos menores. Mas vejo trabalhos bons de forró e chorinho. Gosto também de alguma coisa de rock regional e das galeras black. Por outro lado, a música do povão se deteriorou e está cada vez mais dominando o mercado. O problema todo está em achar que todos devem consumir um só tipo de música, uma só tendência. Falta uma abertura, como ocorre nos Estados Unidos, que tem espaço para tudo.
Em que fase está a produção de seu CD de inéditas?
Está na pré-produção. Estou negociando com três gravadoras. O disco vai reunir 14 ou 15 músicas inéditas e mais quatro regravações de músicas de meu repertório. Além dele, estou preparando um CD infantil com todas as músicas que produzi nos últimos 20 anos para teatro, cinema e televisão. Vai ser um disco beneficente para ajudar crianças vítimas de câncer. A idéia é fazer o lançamento dentro de enfermarias (se permitirem) e doar várias cópias do CD para as instituições arrecadarem dinheiro. Por enquanto, estou na fase de captação de recursos. Mas estou empolgado. Já fiz shows em hospitais e num nível bem superior ao que está sendo feito por aí para as crianças.
Fale mais sobre o seu álbum de carreira. Como ele se insere em sua discografia?
Meu trabalho é muito eclético. É difícil caracterizá-lo através de opção por ritmos. Por isso, sempre enfrento dificuldades para dar unidade ao repertório. O novo disco vai manter a linha do humor, do romântico e da poesia irreverente. Tem rocks, sambas e canções românticas. Tem também um funk, mas mais sofisticado, porque nunca serei popular. O disco pode agradar a diversos públicos, a exemplo dos meus shows, onde aparecem tanto a galera dos 25 aos 40 quanto crianças de 12 e gente de 70 anos.
Você está quase há uma década sem gravar. O seu último disco, ‘‘Contatos’’, é de 1992. O que houve?
Tenho critérios críticos muito severos. Cheguei a preparar três discos durante esse período, mas não aprovei nenhum. O repertório estava sem unidade. Por outro lado, o meu disco de 92 não vendeu nada. E eu queria vender, voltar a fazer sucesso, porque sem isso você é tratado que nem lixo. Já vi colegas serem queimados, triturados. No meu caso, sempre tive mercado. Trabalho muito dirigindo, atuando e fazendo músicas para teatro. Mas estou otimista quanto ao novo disco. Criou-se uma expectativa, tá todo mundo esperando.

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