O dia seguinte não é brincadeira. Ou o presidente da república decreta feriado nacional depois dos jogos do Brasil na Copa ou, em breve, teremos um país de estressados.
Na madrugada de ontem, na minha vizinhança, além dos rojões de praxe, teve gente que deve ter ido de pijama fazer buzinaço na garagem, sem contar um corinho de desafinados cantando ‘‘Pra Frente Brasil’’ a cada lance.
Francamente, os bêbados com vocação artística são os tipos mais abusados do planeta. Mas os caras não estão nem aí: ‘‘Pra Frente Bragil’’, gritam com aquele sotaque de língua presa entre os dentes, enquanto tomam a décima quinta cerveja, dando a clássica beliscada no queijinho. De vez em quando, bem feito, cutucam o canto da boca com o palito porque o Rivaldo só acertou a trave.
O que consola é que vai demorar muitos anos para ter outra Copa no oriente. Assim, o fuso horário deve bater mais ou menos com o nosso no próximo campeonato deixando os menos fanáticos por ‘‘qualquer’’ jogo dormir o sono dos justos. Não que falte entusiasmo aos dorminhocos. Mas tem um tipo de torcedor exigente que vai se animar mais para a frente, com o time realmente encarando a final. Aí sim, o ceticismo vai ceder à vibração com o Brasil já com a mão pertinho da taça.
Mas brasileiro não tem jeito. Se a seleção canarinho jogar com o time da Tasmânia a vibração é a mesma da Copa de 70. Ver a camisa amarela irrompendo o gramado, vestindo a seleção de homens feios (e bota feio nisso!) porém aguerridos, inspira tanto a torcida que tem gente chorando e agradecendo de joelhos a São Judas dos Boleiros mesmo quando a dita cuja ainda nem balançou a rede. Tudo muito justo.
Mas como eu dizia, quem não trabalha em repartição pública nem pode dar uma ‘‘bicuda’’ na aula do dia seguinte tem que fazer das tripas um coração verde-amarelo para suportar o buzinaço e o corinho de torcedores na madrugada.
‘‘Pra Frente Bragil!’’, gritou o Nenê das Chuteiras às 5h15 em ponto na minha janela e eu tive que me segurar para não soltar um rojão na fuça do fanático que, ainda por cima, se vangloriava de ter acertado o palpite do bolão, como se o dinheiro desse para comprar um carro zerinho. Só me segurei porque o Brasil ganhou de 5 a 2 da Costa Rica.

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