São Paulo, 17 (AE) - Dando continuidade ao projeto United Artists, concebido para dar total liberdade aos criadores
a Casa das Rosas inaugura amanhã à noite a exposição "Viagens de Identidades". Propondo como fio condutor a questão da complexa formação da identidade brasileira, a instituição formulou uma lista de 14 pessoas e lhes pediu que convidassem outros artistas para criar juntos uma obra em comum. As intervenções criadas em parceria ao longo dos últimos três meses são extremamente diversificadas.
Algumas duplas, como a formada pelo arquiteto Marcelo Ferraz e por seu convidado, Bob Wolfenson, gostaram do tema proposto e estão apresentando na entrada da Casa uma espécie de tótem que simbolizaria a enorme miscigenação que deu origem ao povo brasileiro. Trata-se de um grande mastro no topo do qual foram içadas três bandeiras com fotos de Wolfenson retratando um negro, um índio e um branco.
Uma segunda intervenção externa, de Ciro Pirondi e Niura Bellavinha, propõe uma diminuição da barreira entre o espaço público e o privado a partir da arquitetura do espaço cultural, ao captar imagens dos transeuntes e projetá-las sobre uma enorme parede de vidro de 2 metros de altura por 35 metros de comprimento. "Nossa idéia foi a de trabalhar com o espaço público, com o caos urbano", explica Niura.
Outro trabalho fortemente centrado na questão da identidade é aquele proposto pela dupla Celso Reeks e Thiago BoudHors e pelo seu convidado, Geandre Tomazoni. O trio criou uma engenhoca que o espectador aciona para carimbar seu RG decodificado em imagens.
Linha mais livre - Outros preferiram seguir uma linha mais livre, dando mais importância à questão do trabalho em dupla. Flávia Ribeiro e Silvia Mecozzi, por exemplo, mergulharam de cabeça na experiência de criar algo a quatro mãos e é interessante notar o que pode ser atribuído a cada uma delas nas gravuras expostas no segundo andar do centro cultural.
O mesmo ocorre com as duplas de pintores e às vezes a diferença entre as linguagens de cada um é tão gritante que a tela parece fragmentada em duas. Se Tomoshigue Kusuno e José Roberto Aguilar (o diretor da Casa das Rosas entra na mostra com o status de convidado) conseguiram pintar a quatro mãos uma tela que pode ser assinada com o trocadilho TOMOaguiSHIGElar, o mesmo não ocorre com as parcerias formadas por Cláudio Tozzi e Rubens Gerchman ou Angelo de Aquino e Ivald Granato. Nesses casos, é como se os artistas tivessem dividido pela metade a área da tela
sem conseguir estabelecer o diálogo desejado entre as intervenções de cada um.
A estratégia de Sergio Romagnolo e Gilda Vogt Maia Rosa de estabelecer um rico diálogo entre linguagens distintas como a pintura e a escultura causou um resultado mais fértil. Aliás, essa mesma característica foi adotada por Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade, que se conhecem desde o tempo de escola.
Critérios de escolha - Outro aspecto interessante dessa exposição é entender os critérios de escolha de cada artista. Em alguns casos, prevaleceu a amizade; em outros, a afinidade plástica. Há até casos de proximidade ainda mais evidente, como a da dupla formada pelo casal Dora Longo Bahia e Marcelo Arruda, que se encontraram no meio do caminho entre a pintura e a fotografia - suas linguagens pessoais -, propondo uma sarcástica instalação intitulada Amsterdam, Paris.
Numa sala escura está sendo exibido um vídeo de uma mulher (Dora) viajando de trem, enquanto duas vitrines contrapõem elementos recolhidos nas duas cidades a excrementos humanos. Na primeira encontra-se um diamante bruto e uma mucosa de nariz (Amsterdã) e na segunda dois vidros de Chanel nº 5, um cheio de perfume e o outro cheio de urina. "Há algo de crítico no trabalho, que faz ironia com as falsas aparências", reconhece Marcelo.
Outra sala de "Viagens de Identidades" que merece atenção é a ocupada por três gerações de gravuristas: Maria Bonomi e seus convidados, Eliana Anghinah e Ernesto Bonato (ambos do Atelier Piratininga). Preservando as características básicas do trabalho de cada um, eles propõem uma instalação conjunta que dialoga com a arquitetura interna da casa, projetada no início do século por Ramos de Azevedo.
Além da exposição, a Casa das Rosas também está dando início a seu segundo concurso de Web Art, cujo tema é a navegação. As inscrições estão abertas até 11 de julho.

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