DUPLA QUERIDA, DUPLA DINÂMICA
Ângela Maria e Cauby Peixoto falam da carreira, do descaso para com os grandes ídolos e de fatos inusitados que ocorreram nestes anos todos
Antônio Mariano Júnior
Milton DóriaCauby Peixoto e Ângela Maria: show emocionou, arrancando maravilhados aplausos Era para ser e foi. Foi lindo! E o melhor de tudo é que as centenas de pessoas que disputaram o espaço do Cabaré do Festival Internacional de Londrina não foram só para ver dois mitos. Foram, e essa é a verdade, para cantar, aplaudir e sobretudo se emocionar com a apresentação de Ângela Maria e Cauby Peixoto, anteontem à noite.
Depois da apresentação, que ninguém ouse dizer que Ângela e Cauby estão fora de forma. Nunca estiveram, mas há quem torça para que Ângela, por exemplo, não consiga os agudos necessários para o seu Babalu. Cauby, por sua vez, mostrou-se sobretudo um ator. Um excelente ator. Seus gestos, sua interpretação e sua postura cênica arrancaram maravilhados aplausos. ‘‘Temos um público imenso, formado inclusive por jovens. Por jovens que se tornaram românticos nos ouvindo’’ - declarou ele durante a coletiva concedida à imprensa. A seguir, os principais trechos da entrevista que Ângela e Cauby concederam à Folha2.
Já não fazem cantores como antigamente?
Ângela Maria - Não. Não sei porque de repente vale tudo agora. Não sei se por causa da televisão ou da tecnologia... Através da tecnologia você pode fazer um cantor ou uma cantora, é só apertar os botões, né?
É por isso, Cauby, que você estava falando antes da entrevista que há vozes feias?
Cauby Peixoto - É. Feias e desafinadas. Ou seja, subiu o botão afina.
Ângela Maria - E depois, quando a gente ouve essa mesma voz num show, a gente fica decepcionado porque não é nada daquilo.
Cauby, você havia me dito que as gravadoras só gostam de fazer coisas comerciais. E que você gostaria de fazer um disco só com músicas que você selecionasse. Vocês não têm autonomia de vôo?
Ângela Maria - Eu tenho, ainda tenho. Só gravo o que quero. Eu tenho um produtor maravilhoso que está sempre comigo, que acata as minhas opiniões porque ele também é um cantor. Sim, porque o José Milton é um cantor, um cantor que não deu certo porque ele é maluco.
Cauby Peixoto - Boêmio.
Ângela Maria - Mas tem uma voz bonita. Então ele sabe, ele gosta daquelas músicas de antigamente. Porque antigamente se faziam grandes músicas, com princípio, meio e fim. Por isso eu sempre gostei das músicas do Ary Barroso, do Caymmi, do Vinícius, do Tom, sempre gravei eles também. E o José Milton... Essa coisa de fazer um disco com amigos (em 95), foi uma idéia maravilhosa dele e do Miguel Plopschi, diretor artístico da Sony, que foi pegar alguns dos meus sucessos e colocar nas vozes mais importantes da MPB - Roberto Carlos, Djavan, Bethânia, Gal, Fafá. Deu certo, foram mais de 700 mil discos. Quis gravar a Dalva de Oliveira porque só tinha sucesso e não era homenageada. Agora não, depois que lancei a idéia todo mundo está gravando Dalva. E ele, o Zé Milton, está com outra idéia maravilhosa que eu não vou dizer agora porque pode não acontecer e aí fica no ar... É uma idéia maravilhosa de fazer um disco comigo que acho que vai ser ótimo.
E quando é que vai sair esse disco?
Ângela Maria - Primeiro temos que fazer o trabalho desse (Pela Saudade que Me Invade - Dalva de Oliveira).
‘‘Babalu’’ já foi gravada pelo Edson Cordeiro e pelo Ney Matogrosso. Quem poderia, na sua opinião, Cauby, gravar ‘‘Conceição’’ à altura?
Cauby Peixoto - A Ângela pode. Agnaldo Timóteo. Mais o Timóteo que qualquer outro.
Não pinta ciúmes quando vocês ouvem alguém regravar os grandes sucessos de vocês?
Cauby Peixoto - Não, não.
Ângela Maria - Não, e sabe o por quê? A Bethânia, a Gal, a Alcione - estou falando do meu clã de cantoras - elas gravam tudo meu. A Bethânia gravou praticamente tudo meu.
Cauby Peixoto - Eu acho que ‘‘Babalu’’ ninguém deveria gravar. É uma interpretação única e antológica, uma coisa que ela fez de brincadeira e deu certo.
Brincadeira?
Ângela Maria - Eu estava fazendo um disco com Waldir Calmon (pianista) e ele pediu para eu participar do disco dele, ‘‘Feito Pra Dançar’’, em 55. Era só sucesso da época. Ficou faltando uma faixa e ficamos pensando ‘‘E agora, o que vamos gravar?’’. Aí veio ele e perguntou: ‘‘você conhece Babalu?’’. Eu respondi que não, só conhecia a melodia. E ele disse que iria escrever a letra e terminar o disco. Entramos no estúdio, começamos a ensaiar, ensaiar. Eu disse: ‘‘que tal enquanto vocês repetem babalu, babalu e eu faço umas coisinhas aí por cima?’’. E o técnico estava lá em cima, olhando a gente ensaiar. Aí eles cantavam ‘‘babalu, aiê, babalu, ai꒒ eu comecei (faz vocalises) e ficou entusiasmado. Aí o Waldir disse ‘‘ótimo, vamos gravar’’ e o técnico: ‘‘já gravei’’.
Qual o tom que você canta ‘‘Babalu’’
Ângela Maria - Ré menor.
Nunca precisou abaixar o tom?
Ângela Maria - Nunca. Se diminuir não dá para fazer os agudos.
E ‘‘Conceição’’, Cauby?
Cauby Peixoto - O mesmo tom de sempre, Fá Maior.
Eu pergunto isso porque algumas pessoas sempre ficam naquela: ‘‘acho que a Ângela não vai conseguir cantar ‘‘Babalu’’ como antes e nem o Cauby ‘‘Conceição’’...
Ângela Maria - (interrompendo) Algumas pessoas pedem para provocar, para provar: ‘‘será que ela canta?’’. Só que cada vez que eu canto eu faço uma interpretação diferente. É de propósito, para provar que até cem anos eu vou cantar ‘‘Babalu’’.
Cauby Peixoto - Eu já não posso cantar ‘‘Conceição’’ diferente. O público não aceita, ninguém aceita. Já tentei, mas exagerava um pouquinho. ‘‘Conceição’’ tem que ser como ela é mesmo.
É verdade, Cauby, que uma vez você cantou acompanhado só de uma cuíca?
Ângela Maria - (rindo muito) e eu no pandeiro.
Cauby Peixoto - Foi numa cidade, que eu não lembro agora o nome, em que o diretor fala que tudo o que artista precisa lá tem. Quando a gente assina o contrato a gente vai pensando que tem tudo isso e na hora não tem nada. E eu fiquei desconfiado, atrás da cortina, e vendo que não havia nenhum instrumento de cordas, um piano, nada. Só tinha um conjunto tocando samba - cuíca, tamborzinho. E como eu e Ângela somos acessíveis demais, não somos...
Ângela Maria - Não somos exigentes.
Cauby Peixoto - É. Nós quebramos árvores e não galhos e tudo isso por causa da voz. Bem eu entrei em cena e fui cantando samba, minhas músicas. E tinha uma mesa enorme gritando para eu cantar ‘‘People’’. Aliás é uma das músicas que a Ângela mais gosta.
Com cuíca ou sem cuíca, Ângela?
Ângela Maria - (rindo) Sem cuíca.
Cauby Peixoto - E aí o povo gritando ‘‘People, People’’ e eu disfarçando e dizendo: e agora, vamos cantar Lupicínio Rodrigues, Martinho da Vila, vamos cantar. Não adiantou nada. E o povo da mesa ‘‘People, People, People’’. Eu olhei o pessoal do conjunto, peguei o cara da cuíca e disse: ‘‘toca, toca a풒. Ficou assim ‘‘Peopleee’’ (faz a imitação de cuíca), People and me (faz mais imitação da cuíca). E agradou.
Fora a cuíca, qual foi o fato mais inusitado que aconteceu com você no palco?
Cauby Peixoto - Bem eu já caí do palco, de costas, e continuei cantando.
E a história do pandeiro, Ângela?
Ângela Maria - Foi num show beneficente que fiz em Guarujá, para uma igreja, em 58. Era o padre Paschoal que me pediu para fazer uma caridade porque ele tinha uma creche de crianças carentes e estava precisando de grana e tal. Fui. Disse que precisava de pelo menos um violão porque ele disse que não tinha dinheiro para pagar um conjunto. Eu disse: ‘‘um violão tá bom’’. A sala estava assim de gente. O show começaria 11 horas, e meia-noite nada. E o pessoal batendo palmas e eu disse: ‘‘padre como é que fica?’’. E ele: ‘‘Angelina, eu não sei niente’’. E eu disse: ‘‘sei lá, sai por aí procurando alguém que toca alguma coisa’’. E ele disse: ‘‘Ah, eu já sei!’’. Tá! De repente ele chega com um cara vestido de pijama listado. Eu disse: ‘‘padre, eu vou cantar com o pandeiro’’. E o padre: ‘‘foi a única coisa que eu arranjei’’. E cantei com pandeiro.
E quantas músicas você cantou?
Ângela Maria - Por incrível que pareça eu cantei umas dez músicas com pandeiro.
Cauby Peixoto - Aí é que está: pode, quando o cantor tem voz pode cantar... À capela, inclusive.
Cauby, você me disse, por telefone, que às vezes a mídia não coloca vocês dois no devido... andor, é isso?
Cauby Peixoto - No devido?
Andor. Você disse que ainda tem mídia, mas a mídia deveria colocar alguns grandes artistas ...
Cauby Peixoto - Ah, sim, lugares, pedestais.
Pedestais, a palavra usada foi essa.
Cauby Peixoto - Pedestais, isso mesmo. Ela é rainha da voz. Ainda não existe, desculpem, voz melhor em extensão que a da Ângela. Ela vai até o soprano, contralto. E eu, graças a Deus, tenho uma voz bonita. Ângela sabe quem canta e quem não canta, mas ela é generosa com os colegas e não critica e não gosta que critiquem os colegas. Quando digo que há vozes feias é verdade, porque há vozes que não entram dentro da gente.
Deixa lhe dizer uma coisa, Ângela, ninguém tem um ‘‘lariri’’ melhor no Brasil que você.
Ângela Maria - A Dalva tinha o lariri.
Mas foi você quem popularizou, tem consciência disso?
Ângela Maria - A Dalva deixou de fazer o lariri e eu peguei e popularizei mesmo.
Cauby te chamou de rainha e ele o que é?
Ângela Maria - Ele é o rei.
Roberto Carlos foi destronado agora?
Ângela Maria - Roberto continua sendo o rei naquele gênero dele.
Vocês são as vozes oficiais do Brasil, é isso?
Cauby Peixoto - Taí, gostei disso. Por que não nós para cantar um samba exaltação, uma ‘‘Aquarela do Brasil’’, uma ‘‘Ave Maria’’.
O Brasil foi ingrato com vocês em algum momento?
Cauby Peixoto - Com a cultura foi, um descaso imenso.
Ângela Maria - Não, Cauby, ele diz especificamente comigo e com você.
Cauby Peixoto - Somos exceção.
Ângela Maria - Nunca fomos postos de lado, sempre tivemos carinho do público.
Do público, mas as gravadoras chegaram a ignorá-los em alguns momentos, não?
Ângela Maria - Eu cheguei a ficar oito anos.
Cauby Peixoto - Eu fiquei algum tempo, algum tempo. Mas o que eu queria dizer era o seguinte: não se executava a MPB mais se fazia. A MPB sempre foi linda...
Ângela Maria - Mas Cauby, agora graças a Deus 70 por cento das músicas nas rádios são MPB. Tá certo que a gente não está nessa, mas graças a Deus o pagode, o sertanejo, a MPB estão tocando de novo.
Cauby Peixoto - Mas a gente não ouve compositores que são tocados lá fora, como Djavan, Ivan Lins, Chico Buarque.
Ângela Maria - Mas eu digo Graças a Deus porque pelo menos não tá tocando tanto gringo...
Mas vocês quase não tocam. Mudou o quê, as gravadoras ou o público?
Cauby Peixoto - Isso é falta de patriotismo. O que estamos fazendo aqui é o que devemos fazer sempre. Peguei a Time e falava da morte do Sinatra. Compare com a morte do Nelson Gonçalves e veja como nós somos. É um descaso, um descaso.
Ângela Maria - É o que sempre digo: o que tiverem que fazer por mim façam enquanto estou viva porque quero estar presente, quero gozar aqueles momentos. Depois que eu morrer, pelo amor de Deus. Estou sempre sendo homenageada onde chego, como sendo eu uma deusa. Se tiver mais quero estar presente.
Serve uma homenagem particular?
Ângela Maria - ...
Salve, rainha!
Ângela Maria - Ui!!!
Salve, rei!
Cauby Peixoto - Legal, legal mesmo.
Cauby canta hoje em Curitiba. Leia na página 4.

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