As engrenagens que regem a televisão são bem conhecidas por Flávia Alessandra. ''Estou acostumada a esse universo. É sempre muito trabalho e pouco tempo para desenvolvê-lo'', analisa. No entanto, mesmo com a experiência adquirida ao longo de 22 anos de carreira e 16 novelas, a atriz nunca atuou como em ''Morde & Assopra'', na qual interpreta uma mulher e sua versão robótica, ambas chamadas Naomi. Esta não é a primeira vez que Flávia dá vida a duas personagens na mesma trama - dupla jornada que enfrentou em ''Porto dos Milagres'', de 2001, e ''O Beijo do Vampiro'', de 2002. Porém, na atual novela das sete, a grande dificuldade foi dosar a naturalidade da Naomi feita de carne e osso com a superficialidade proposital da androide. ''Gravo cenas como humana e como robô. Não é tão simples mudar toda a caracterização para cada sequência. Estou quase morando no estúdio'', conta a atriz, com ar de cansaço, mas com um belo sorriso no rosto, que denota sua felicidade com o trabalho.
Em março, quando ''Morde & Assopra'' estreou, sua filha mais nova estava com pouco mais de cinco meses de idade. O que levou você a encarar uma personagem dupla logo depois da gravidez?
Fiquei encantada pela personagem assim que li os primeiros capítulos da novela. Pensei que seria a chance de fazer uma androide, um papel pouco comum. Quem seria o outro doido que criaria uma personagem dessa para mim? Aí aceitei o convite do Walcyr. Inicialmente, seria um trabalho perfeito para depois da gravidez. Pois a robô vivia no laboratório. A versão humana só iria aparecer no fim da novela para desvendar mistérios e mexer com tudo. Era o plano perfeito.
Mas além de a robô ter aparecido mais na trama, a volta da Naomi humana foi antecipada. Você estava pronta?
Tudo aconteceu rápido demais. Está sendo pesado, uma grande batalha, muita ralação. Mas não posso reclamar. O público gostou da personagem e o Walcyr me disse que iria aumentar um pouco a participação. A robô começou a sair da casa, a se envolver com outros personagens. Além disso, veio a surpresa do aparecimento precoce da versão humana. O saldo final foi superpositivo. Mas eu não contava que essa reviravolta fosse acontecer antes do meio da novela.
Em algum momento você se confundiu na hora de gravar e usou características da humana na androide ou vice-versa?
Sim, mas procuro me concentrar muito para isso não acontecer. A maior dificuldade é com os trejeitos. É o que mais embola minha cabeça. Fica ainda mais difícil quando coordeno as duas juntas. Eu tenho de contracenar com uma dublê, já fico pensando nas reações do outro lado. Dou as coordenadas do que a dublê deve fazer, dos movimentos, e depois vou lá e faço também. É uma loucura, acabo a cena e tenho de tirar toda a caracterização e refazê-las como a outra personagem.
Esta é a terceira vez que você trabalha em uma novela do Walcyr Carrasco. Qual a característica do texto dele que mais a atrai?
Ele sempre me desafia. Ate brinco dizendo que nessa novela o Walcyr esgotou todas as minhas possibilidades. Não consigo vislumbrar muito bem o que pode vir pela frente. Porque foi uma humana e uma robô, a máquina foi desligada e voltou má. Nesse momento, a humana tem uma reviravolta e começa a ficar louca e ter transtornos. Virou uma outra personagem. O Walcyr até reconheceu e falou: ''Eu sei, a gente combinou que seriam duas personagens, mas acabei escrevendo uma terceira''.
E o que essas personagens representam no conjunto da sua carreira?
Representam um amadurecimento artístico. Tive papéis difíceis, mas nunca fui testada dessa forma. Ainda mais em novelas, onde a rotina é cansativa e a falta de tempo é sempre uma realidade. Cresci muito ao ter de dar conta dessas personagens, fazer as cenas de forma satisfatória. Afinal, com a exposição diária que tenho, ou me aceitam ou me mandam para o ''paredão'', sem direito a uma segunda chance.
A novela está há dois meses do fim. Está satisfeita com o resultado do trabalho?
Acho que conseguimos emplacar a história. No entanto, sou muito autocrítica. Gravo todos os dias e vejo a novela diariamente. Sempre fiz isso e acho muito importante. Porém, nunca tive a plena satisfação com meu trabalho. Um dia chego lá, mas ainda é um sofrimento me ver no vídeo. Quando estou gravando, evito pedir para revisar, se eu fizer, sei que eu vou pedir ao diretor para refazer alguma coisa na cena.
''Morde & Assopra'' - Globo - Segunda a sábado, às 19:10 h.

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