Dupla face
Crime, favela, bandidagem. Este não costuma ser o cenário ideal para a construção de um mocinho numa novela. No entanto, Marcílio Moraes escolheu este terreno argiloso e escorregadio para a composição de Nando, o protagonista do seriado A Lei e o Crime, da Record, que volta ao ar no próximo ano na emissora. O mocinho de Angelo Paes Leme começa a trama como um sujeito comum, com família e alguns valores morais. Aos poucos, porém, após a atitude intempestiva de matar o sogro Reinaldo, de Roberto Frota, ele passa a pertencer à bandidagem e vira chefe de uma gangue para poder sobreviver. Mesmo assim, ele tinha gestos generosos e leais. A minha mocinha nessa história, a Catarina, de Francisca Queiroz, era uma ricaça. Normalmente os milionários são os vilões. Gosto dessa mistura, destaca Marcílio.
Em A Favorita, da Globo, o mote da história era justamente este limite tênue entre a vilania e o heroísmo. Tanto que, no início da história de João Emanuel Carneiro, o público ainda não sabia quem era a verdadeira vilã da trama: Flora, de Patrícia Pillar, ou Donatella, de Cláudia Raia. Após a cena de uma briga entre as personagens, onde Flora assume o assassinato do ex-marido da personagem de Cláudia, os papéis de ambas começaram a ficar delineados por uma monocórdia linha de condução do heroísmo de Donatella e da dissimulada e maniqueísta vilania psicopata de Flora. A abertura daquela novela já denunciava os opostos bem definidos. Flora aparecia na parte negra da tela, enquanto Donatella era exibida na parte branca da abertura. As sombras e o meio termo nas atitudes foram apenas no início da história, lembra a psicanalista Luiza de Freitas.
Bela, A Feia é uma trama com protagonistas absolutamente maniqueístas, adaptada da colombiana Yo Soy Betty, la Fea. Sem matizes intermediários de personalidade e atitudes, os personagens são extremamente bons ou maus.





