Química, diriam alguns. Mas o que realmente une Alaíde Costa e João Carlos Assis Brasil é a empatia e sofisticação musical. Senão, como explicar uma das maiores intérpretes e um dos pianistas mais conceituados terem juntado os respectivos instrumentos em dois projetos antológicos? O primeiro disco, em 1995. O mais recente, lançado no final do ano passado, denominado ''Voz & Piano'', poderá ser conferido hoje, no Cabaré do FILO, no show de lançamento. Ao vivo, em cores e muito requinte.
Para Alaíde, o nome do projeto e do show seria ''Noturno'', tema instrumental de Radamés Gnatalli que abre o disco, lançado pela Lua Music. ''Ah, é 'Voz & Piano'? Nem eu sabia! Para mim era ''Noturno'', não me atentei'', diz entre admiração e breves risadas. O repertório é composto por canções de autores notáveis como Lupicínio Rodrigues (''Nunca''), ''Herivelto Martins (''Bom Dia), Tom Jobim e Vinicius de Moraes (''Janelas Abertas''), Ary Barroso (''Ocultei), Joyce (''Essa Mulher''), entre outras preciosidades. ''Posso dizer que o show de será um encontro de muita alegria entre duas almas muito afins'', resume João Carlos Martins, um dos pianistas brasileiros com forte projeção no exterior, em especial na França. As entrevistas foram concedidas à FOLHA2 por telefone.
O espetáculo estreou em novembro do ano passado no Rio - voltou em janeiro para outra temporada - e seguiu para São Paulo e João Pessoa (PB). Hoje chega a Londrina. Por se tratar de um show que pede contemplação, a organização do FILO optou por colocar mesas e cadeiras para que o público possa melhor apreendê-lo. ''É um espetáculo intimista e camerístico porque tudo o que Alaíde faz requer muita introspecção. Faremos um passeio interessante através de releituras muito íntimas de canções'', avisa João Carlos.
Alaíde e João Carlos se conheceram mais intimamente há 12 anos quando fizeram o primeiro álbum. De lá para cá, foram estreitando laços ao ponto de, segundo João Carlos, não estar descartado um outro disco para completar a trilogia. Aos 61 anos, o pianista é um dos poucos que conseguem transitar entre o erudito e o popular e ainda imprimir personalidade. ''Quem ouve sabe bem o meu estilo, que pode ser classificado como um ''caldeirão de influências'' em que mesclam-se o popular e o erudito com harmonias jazzísticas'', explica ele, que tem 16 discos gravados.
Ele toca desde os sete anos e, entre os feitos como instrumentistas, está o Prêmio Internacional Beethoven, em 1965, na Áustria (classificou-se em terceiro lugar), onde também atuou como solista da Orquestra Filarmônica de Viena. Enfim, trilhou uma bem-sucedida trajetória.
Muito bem, incrível mesmo é a afinidade entre João e Alaíde, a começar pelo temperamento acolhedor de ambos. Um não poupa elogios ao outro. ''Eu entendo tudo o que o João Carlos quer passar com seus acordes, elaboradíssimos por sinal. E ele entende minha linguagem'', diz Alaíde.
Aliás, é uma delícia ouvi-la, inclusive fora do palco. Em momento algum da entrevista alterou a voz, embora critique levemente a maneira como foi tratada por algumas gravadoras. ''Nunca tive o espaço que deveria ter, mas não reclamo porque foi uma opção levar minha carreira da maneira que gosto. Sempre ouvi que eu cantava diferente, que tinha repertório difícil'', diz.
A autonomia e coerência podem ser medidas nas quantidades de disco - até agora 14 títulos registrados em 52 anos de carreira. ''Poucos, né?'', indaga. Discordo! Qualidade é o que vale, certo? Muitos são os adjetivos destinados à essa senhora do canto brasileiro. De Diva até estilista musical (assim o pesquisador e compositor Herminio Bello de Carvalho a chama), ela se esquiva um pouco mas afirma: ''Ah, eu acho que tenho um estilo próprio, sim, porque não vejo outra pessoa cantando do meu jeito. Uma coisa é certa:jamais vou cantar uma mesma canção da mesma maneira''.
A voz de Alaíde... Timbre raro, mezzo soprano que nunca se preocupou em fazer aulas de canto ou técnicas para melhor colocação da voz. ''Vou pela emoção mesmo'', ensina a intérprete de 71 anos. ''Sou de Sagitário com ascendente em Sagitário, mas não sou ligada à astrologia'', confessa. Alaíde, saibam, nasceu sob o signo da eternidade...

Serviço
- Show ''Voz & Piano'', com Alaíde Costa e João Carlos Assis Brasil, no Cabaré, dentro da programação do Festival Internacional de Londrina. Hoje, às 23 horas. O Cabaré (Avenida Tiradentes, 987, antigo Rancho Brasil) abre as portas às 22 horas. Ingressos a R$ 20,00 e R$ 10,00 (estudantes e aposentados). Ponto de venda: Royal Plaza Shopping.

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