Duo lança CD conversa a dois
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terça-feira, 07 de julho de 1998
Ranulfo Pedreiro 
A situação política da então Tchecoslováquia estava conturbada, no início da década de 70, quando surgiu em Praga um maestro convidando músicos para trabalhar no Brasil. Com um contrato de dois anos, a violinista Ludmila Vinecka veio para o País - sem saber exatamente o que a esperava - para tocar na Orquestra Filarmônica de São Paulo, em 1971. Alguns instrumentistas voltaram para Praga no prazo estabelecido, mas gostei daqui e me esqueci de voltar, brinca a intérprete.
De São Paulo, Vinecka foi para Porto Alegre e depois para Brasília, onde conheceu o violoncelista Guerra Vicente. Eu sou do Rio de Janeiro e recebi um convite para lecionar na Universidade de Brasília em 1972. Lá nos encontramos e desenvolvemos uma grande empatia musical, explica Vicente.
Desde então ambos foram burilando vários trabalhos, tecendo um repertório que resultou no CD Conversa a Dois, que será lançado hoje em Londrina durante apresentação no Cine-Teatro Ouro Verde, às 20h30, dentro da programação do 18º Festival de Música de Londrina.
Este álbum é o resultado de um trabalho amadurecido, ressalta o músico. No disco, o duo interpreta Divertimento, de José Guerra Vicente, pai do violoncelista; Duo, de Cláudio Santoro; e Dois Choros (Bis), de Villa-Lobos. A segunda parte do álbum traz compositores internacionais, com obras de Couperin, Paganini e Haendel. Para o show de hoje, os instrumentistas optaram por apresentar apenas a parte nacional do disco.
É um CD independente, criamos um selo e gravamos num estúdio que montamos em casa. O selo chama GLB, e o álbum é nosso trofeuzinho, o resultado de um sonho, ressalta Vicente. O CD teve um pré-lançamento em Brasília, mas ainda não foi lançado fora do Distrito Federal.
A presença de uma composição do pai de Vicente no repertório não deve ser encarada como homenagem: Meu pai deixou uma obra grande e variada, e tenho a preocupação em divulgar esse material. Nós não tocamos com espírito de homenagem, foi natural, achamos bonito. A obra dele deve ser difundida normalmente, como a de qualquer compositor.
Os músicos também priorizam a divulgação da música brasileira. Tanto nos trabalhos do Duo quanto do Quarteto de Brasília, do qual fazemos parte, temos essa preocupação. O segundo disco do Quarteto chama-se Clássicos da MPB, com arranjos para cordas de músicas como Brasileirinho, Garota de Ipanema e Olê Olá, acrescenta Guerra Vicente. O terceiro álbum do grupo trouxe obras de Villa-Lobos e outros compositores nacionais. Em 1993 o Quarteto ganhou o Prêmio Sharp.
Em Praga, dos brasileiros, eu só conhecia um pouco de Villa-Lobos, recorda-se Ludmila Vinecka. Com o tempo, ela descobriu que os compositores nacionais são pouco divulgados até mesmo no Brasil. É uma pena, pois as músicas não são editadas, é tudo manuscrito, xerocado, fica difícil de estudar, de pesquisar, alerta.
A falta de material publicado atinge até compositores consagrados: Fica difícil saber o que existe. O Brasil é como um arquipélago cultural, não há algo que congregue toda a produção, acentua Vicente.
O violoncelista ressalta que o desinteresse em editar composições nacionais é uma das facetas do ensino da música no Brasil: Quando estudávamos, éramos obrigados a importar professores, que por sua vez não conheciam a música brasileira. Os estudantes tocavam mais Bach do que Villa-Lobos. Hoje você já encontra professores aqui que suprem as necessidades técnicas, há uma divulgação maior do repertório.
Com o estúdio montado, a dupla pensa agora em aumentar os registros de seu trabalho. A música acaba depois que é tocada. Não é como a pintura ou a escultura, em que a obra permanece. Vamos lançar um CD do Quarteto de Brasília, acompanhado por um flautista, com obras de Mozart, explica Vicente.
O Quarteto também está gravando um outro álbum com obras populares do repertório internacional, além de desenvolver projetos para os 500 anos do Descobrimento do Brasil, incluindo um disco de composições portuguesas e brasileiras. Temos ainda um outro CD com violino e piano. A Ludmila está voltando às origens interpretando músicas Tchecas. O álbum se chama Românticos de Boêmia, que é a região dela, explica Guerra Vicente.
Os músicos também têm alguns projetos de viagens, para descobrir obras escondidas pelo Brasil: Essa coisa de globalização sufoca expressões culturais que têm menos marketing, menos suporte governamental. A globalização tende a impor o 4 de julho - dia da independência dos Estados Unidos - como dia nacional de todos os países, critica o violoncelista.
Mas, para o músico, a globalização também traz algumas vantagens. Hoje o compositor pode escrever no computador e imprimir, ficando livre dos editores, conclui, lembrando que existem programas que facilitam a escrita musical, um processo que antigamente era demorado e caro.


