Duke Lee brinca com o renascimento e o barroco em nova exposição
São Paulo, 24 (AE) - Depois de esbravejar contra a cultura de massas, as esquerdas, as galerias, os museus, o público e o governo brasileiros, o artista plástico Wesley Duke Lee quer entrar na era da maturidade. Talvez um pouco tarde (ele completa 68 anos no dia 21), diz que cansou de reclamar, não posa tanto de playboy como no passado e retorna ao que melhor sabe fazer: pintar. "O Filiarcado - Ensaio Alquímico com Jogos Infantis", mostra em três partes, que começa amanhã (25) na Galeria São Paulo, reúne 29 quadros que tentam sintetizar a obsessão de Wesley por três temas: a pintura renascentista de Andrea Mantegna (1430-1506), o barroco de Jacques Stella (1596-1657) e os desenhos rupestres de mais de 30 mil anos encontrados em 94 em Chauvet (sudeste da França).
A estréia, chamada Albedo, reúne nove grandes telas em formato de losango que, apesar de ficarem um pouco apertadas no espaço da Galeria São Paulo, impressionam pelo tamanho (1,6 m de lado e 2,6 m de altura), disposição (os losangos ficam "espetados" em suportes de vidro e aço, solução que lembra a de Lina Bo Bardi para o Masp) e cores (todas têm forte fundo ocre, ativado por uma superfície rugosa criada com camada de argamassa). Rubedo e Nigredo completam a série e serão exibidas, respectivamente, a partir de 14 de dezembro e 11 de janeiro.
Mas o que significam todas essas referências e nomes estranhos? No caso, não importa, pois fazem parte das idiossincrasias intelectuais típicas de Wesley, e não vale a pena perder tempo em decifrar sua autoproclamada erudição. Melhor que buscar relação entre seu discurso e sua obra é olhar os quadros, que revelam um artista que domina o desenho e a pintura como poucos no Brasil.
Sobre lona, superfície que ele tornou rugosa ("Como as paredes da caverna", diz) com o uso da argamassa, ele recriou com pastel a óleo os anjos de Mantegna e Stella brincando de jogar dardos, pular fogueira, cabra-cega e outros folguedos. O tema já havia sido esboçado em 1991 na mostra "Os Trabalhos de Eros - Preparação para a Anunciação da Era do Filho", na extinta galeria paulistana Kate Art Gallery. Mas ele conta que a idéia para a série surgiu há 18 anos.
Pioneiro - Wesley Duke Lee é neto de um pastor presbiteriano americano que chegou ao Brasil depois da Guerra de Secessão para fundar aqui colégios para a elite. Em Juiz de Fora
por exemplo, seu avô criou o Grambery, onde se fomaria o ex-presidente Itamar Franco. Sua avó era uma lavadeira portuguesa que morava no Brasil.
Ele já transitou pela colagem, instalação e intervenção - além de ter promovido, em 1963, o que é considerado o primeiro happening brasileiro, no João Sebastião Bar, boteco descolado que ficava próximo ao Mackenzie. Depois de ter seus desenhos eróticos recusados pelas galerias, Wesley resolveu apresentá-los no bar. Distribuiu lanternas para que as pessoas os vissem (o lugar era escuro) e, no fim, fez com que ventiladores jogassem penas de galinha, espuma e confete sobre o público. Sua celebração maior no Brasil ocorreu no fim de 1992, quando o Masp lhe dedicou uma retrospectiva com 200 obras.
Politicamente, Wesley não tem pudor em se assumir como uma pessoa de direita. Também não esconde sua admiração pelo sistema de arte e a produção dos EUA e da Europa. Acreditando-se "condenado" a aqui permanecer, Wesley segue criando, alternando estados de amargura e bom humor. Suas "tiradas", vistas por alguns como puro cinismo e deboche, são chamadas por ele de ironias. Como a dedicatória dessa mostra: "Aos 500 anos de Brasil", escreveu o artista na abertura do catálogo. Serviço - Wesley Duke Lee. De segunda a sábado, das 10 às 20 horas. Galeria São Paulo. Rua Estados Unidos, 1.456, tel. 852-8855. Até 11/12. Abertura amanhã (25), às 21 horas





