Costuma-se dizer que a Bossa Nova inventou o Brasil para o mundo. Vem de décadas, portanto, a influência além-fronteiras exercida pela música popular verde-amarela. A exemplo de Cesaria Evora, a cantora portuguesa Eugenia Melo e Castro é outra que construiu uma ponte entre a terra natal e a pátria do samba, com a diferença de apagar sistematicamente de sua obra os vestígios musicais de seu país.
É o que se ouve no álbum ‘‘eugenia melo e castro.com’’ (Eldorado), que ela está lançando simultaneamente ao CD ‘‘Ao Vivo em São Paulo’’, gravado no Teatro do Sesc Pompéia em São Paulo. O disco traz duetos e parcerias com o primeiro time da MPB reunindo gravações feitas desde 1982, quando ela juntou vozes com Ney Matogrosso em ‘‘Dança da Lua’’. O repertório é conhecido, à exceção da inédita ‘‘Surpresas’’, com música de Gonzaguinha e letra de sua autoria escrita aos 14 anos.
Eugenia está comemorando 20 anos de carreira. Ela faz parte da geração que começou a destronar o pop internacional das paradas lusas estabelecendo-se no mercado fonográfico ao lado de nomes como Madredeus, Dulce Pontes, Pedro Abrunhosa, Maria João, Rui Veloso, Delfins e outros. A paixão pelo cancioneiro brasileiro remonta à adolescência, à época em que seu pai – o poeta Ernesto Melo e Castro – viajava constantemente para cá e na volta jamais deixava de estufar as malas com discos de Bossa Nova, Tropicália e da turma do Clube da Esquina.
Ao decidir ser cantora, depois de enveredar pelo cinema, tomou o roteiro do pai e desembarcou no Rio de Janeiro atrás do maestro Wagner Tiso, o qual convidaria para ser seu diretor musical. Daí para frente, engatou uma ponte-aérea com temporadas alternadas de três meses entre um país e outro. Viagens que a colocaram em contato com os ilustres da MPB, cujas parcerias foram compiladas agora no novo CD.
Ao lado de Eugenia estão Tom Jobim (‘‘Canta Mais’’), Caetano Veloso (‘‘Olhos Castanhos’’ e ‘‘Coração Imprevisto’’), Chico Buarque (‘‘Constrastes’’), Milton Nascimento (‘‘Amor é Cego e V꒒), Egberto Gismoni (‘‘Modinha’’), Gal Costa (‘‘Quando a Tua Boca Beijo’’), Carlos Lyra (‘‘Amarga Vinha’’), Toninho Horta (‘‘Emissário de um Rei Desconhecido’’), Simone (‘‘Caminho Errado’’) e os já citados Ney Matogrosso (‘‘A Dança da Lua’’ e ‘‘Foi Deus’’) e Wagner Tiso (‘‘Todo o Sentimento’’).
A única inédita, ‘‘Surpresas’’, traz o registro da voz de Gonzaguinha cantando ao ar livre num jardim do Castelo de São Jorge, em Lisboa, no verão de 1987. A música demorou mais de dez anos para ser finalizada. Em 1998, Wagner Tiso deslocou-se a Lisboa para gravar a base de piano e a voz de Eugenia, num arranjo especialmente criado para a única referência existente: a voz de Gonzaguinha, morto em um acidente de trânsito em 1991.
Ao longo das faixas, Eugenia expõe suas virtudes como intérprete. Mas a uniformização dos arranjos, apoiados em sua maioria nos teclados, quase põe a pique o ecumenismo atlântico. Muitos não perdoarão.

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