Existem atores que apenas com sua presença magnética justificam, e com muita folga, o desembolso de um ingresso de cinema. Especialmente para pessoas de determinada geração. É o caso da dupla formada pelo grande Dustin Hoffman (72) e pela formidável Emma Thompson (50). Embora não estejam mais no auge da popularidade neste cenário perverso que favorece indiscriminadamente o mais jovem, o mais bonito e no qual talento é loteria, os dois continuam figuras de peso, sempre entregando o melhor de si em cada cena. E não importa se o argumento não for terrivelmente original: interessa é que ambos trazem para seus personagens uma aura sublime de humanidade, empatia e ternura. Como ocorre neste ''Tinha Que Ser Você'', em estreia a partir de hoje em Londrina e Maringá (veja a programação de cinema na página 2).
Ambientada em Londres, esta é a história de Harvey Shine (Hoffman), um compositor frustrado. Ele vive de criar música para publicidade de tevê, já que não conseguiu materializar o sonho de ser pianista de jazz. É também a história de Kate Walker (Thompson), que trabalha para uma empresa de pesquisas com passageiros de avião. Solteira e solitária, ela tem a mãe senil (a ótima Ellen Atkins) com temores irracionais por causa dos vizinhos. Ele foi à Inglaterra para o casamento da filha, de quem esteve distante por muitos anos. Assiste a cerimônia, mas decide não ir à recepção porque tem que voltar urgente para Nova York. Neste meio tempo é despedido por telefone mesmo - há uma nova geração de ''compositores'' de jingles tomando conta do mercado. Além disso, sua filha informa que quem vai conduzi-la ao altar é o padrasto.
Harvey e Kate se encontram por acaso, e de saída há reservas de ambas as partes. Mas logo iniciam uma longa conversação (pode-se dizer que quase todo o filme é um extenso diálogo entre os dois) sobre suas vidas, seus temores, seus anseios. É o princípio do que pode vir a ser uma relação entre duas pessoas sozinhas, maduras e imperfeitas, com base na proverbial ''última chance'' sugerida pelo título original, ''Last Chance Harvey''.
Aqui, com os dois interagindo, é quando o filme de fato funciona e importa. O resto - as subtramas de persuadir o pai a ir à festa da filha, a compra do vestido, as suspeitas da mãe de Kate, o choque cultural - aparece como adornos, são de pouca transcendência e funcionam apenas como distração. O objetivo primordial da trama é colocá-los em processo de conhecimento mútuo, tarefa bem cumprida pelo diretor-roteirista Joel Hopkins, mesmo se em alguns momentos as interrupções neste diálogo pareçam irritantes.
Ao ressuscitar com delicadeza a ideia do ''primeiro dia do resto de nossas vidas'', o filme enseja ao espectador uma outra ideia de redenção afetiva: a de que os aeroportos, bem como os supermercados, também podem reservar aos passageiros e consumidores outras surpresas além dos aviões de carreira e das ofertas do dia.

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