Livro de Ive-Alain Bois mostra semelhanças nas obras de Matisse e Picasso, dois gigantes contemporâneos que empreenderam um diálogo incessante sobre a arte figurativa
Dois gênios das artes plásticas deste século crepuscular, o francês Henri Matisse (1869-1954) e o espanhol Pablo Picasso (1881-1973), dialogaram à distância durante cinco décadas, de uma forma salutar para o mundo das artes. Os traços semelhantes na produção de Matisse e Picasso foram muito além de um diálogo. Os titãs das cores e formas fundiram uma sintonia de pensamento. A competitividade intensa e a inveja secreta temperaram as tintas de Matisse e Picasso.
Essa afinidade rendeu um estudo do respeitado crítico de arte Yve-Alain Bois, argelino-francês que psicanalizou a obra dos mestres da pintura. O diálogo ‘‘ouvido’’ por Bois se transformou no livro ‘‘Matisse e Picasso’’, numa esmerada publicação da Editora Melhoramentos (R$ 89,00). Apresentado com uma linguagem envolvente, o autor comprova os argumentos da admiração mútua com farta ilustração comparativa dos pintores. Yve-Alain Bois argumenta que Matisse não copiava Picasso e nem o inverso, reinava uma compreensão ativa entre ambos. Um reagia ao outro.
‘‘O diálogo mantido por eles é mais do que uma conversa particular, é uma matriz onde se encontram todas as questões relativas à história da arte figurativa’’, ressalta. Para Picasso, por exemplo, o debate com Matisse teria sido uma força estruturadora. Às vezes, Picasso mostrava que Matisse não havia ido suficientemente longe, e a obra precisava um arremate.
Já em 1907, o espanhol declarara a um amigo: ‘‘nunca ninguém enxergou a pintura de Matisse como eu. E foi ele quem melhor enxergou a minha’’. Esse desejo mimético levou não só a apropriações estilísticas, como também a lutas territoriais. Era comum o espanhol abrigar uma exposição individual, no mesmo local em que o francês havia acabado de expor. O autor estrutura esse embate três fases: ‘‘desvio’’, ‘‘arremate’’ e ‘‘demonização’’.
Picasso foi acometido pela febre matisseana em vários períodos de sua produção, como em 1931/1932, quando produziu 30 telas grandes, todas remetendo ao pintor francês. Mas é bom lembrar que qualquer coisa pintada pelo irriquieto espanhol, era transcodificado. Mesmo distantes geograficamente, um artista compreendia o outro, buscando uma sintonia.
Eles se visitavam mutuamente em seus ateliês, e a criação de um impulsionava o outro. Também se presentearam com obras importantes. Picasso deu a Matisse o ‘‘Retrato de Dora Maar’’, enquanto que o amigo lhe presenteou com ‘‘Vestido Violeta, Poltrona Vermelha de Veneza’’. Quando se encontravam em público, eram celebridades. Visitavam exposições um do outro, espionavam catálogos. Se homenageavam por intermédio da pintura. Tanto poderia ser imediatamente à criação de uma obra significativa, ou décadas depois.
‘‘Nu Deitado’’, de Picasso, de 1947 é uma clara homenagem ao ‘‘Nu Azul’’ pintado por Matisse em 1907. A sinuosidade da figura, o braço direito dobrado atrás da cabeça são elementos que comprovam essa homenagem. Num desenho de 1932 (Ateliê), uma figura repousa numa mesa, contemplando um quadro num cavalete, representado uma odalisca de Matisse adormecida.
Picasso era mais intuitivo e impulsivo, dotado de uma intensidade sensorial exorbitante. Provocativo, ele batizou sua exposição em 1925 de ‘‘Odalisca’’, uma clara referência ao quadro de Matisse, produzido pouco antes. O gênio espanhol admirava no mestre Matisse a consciência arguta da função estrutural da cor. Em vários momentos, Picasso assumiu pose matisseana, como em ‘‘Nu no Jardim’’, enquanto que Matisse fez ‘‘Grande Nu Deitado’’ de maneira expressamente picasseana.
A grande partida de ‘‘xadrez’’ não foi interrompida nem com a morte de Matisse, em 1954. Picasso pintou telas comoventes depois da morte do amigo, como se qualquer defesa e toda prudência tivessem sido abolidas. A simetria entre os dois ultrapassou o entendimento.

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