Ducos mostra trabalhos inspirados pela cabala
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terça-feira, 08 de junho de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 09 (AE) - A cabala é o eixo central da exposição "Sefirot", que Arturo Duclos inaugura esta noite na Galeria Thomas Cohn, em São Paulo. Partindo da árvore da vida e de referências alquímicas, ele constrói uma série de trabalhos nos quais explora as intrincadas relações entre as dimensões divinas e terrenas, sem no entanto cair na banalização ou mitificação da religiosidade. "Interessam-me as relações culturais das diferentes religiões como ponto de partida para conceituar meu trabalho", resume.
O trabalho de Duclos tem uma interessante ambivalência, sendo extremamente cerebral - "quase como mapas mentais", explica o artista - e ao mesmo tempo extremamente sedutor. As 12 obras que compõem sua primeira mostra individual no País atraem imediatamente a curiosidade do espectador que, encantado, procura entender como o artista conseguiu construir aquele conjunto de ícones, referências, cores e padronagens distintas, sem que uma imagem se sobreponha à outra. "O que me interessa é o ato de comunicação com o espectador", diz ele.
Os brasileiros já tiveram duas oportunidades anteriores de ver o trabalho de Duclos, na Bienal do Mercosul e na última edição da Bienal de São Paulo. Seu trabalho na mostra paulistana
no entanto, era completamente distinto do apresentado agora. Apesar de utilizar os mesmos símbolos do poder recorrentes em sua obra (a cruz, a espada, a foice e o martelo e a estrela), a instalação que preparou para o evento era muito mais fria, não provocando a curiosidade do público.
Utilizando uma técnica da indústria têxtil, que permite transferir imagens para tecidos à base de poliéster usando tintas especiais, ele realiza uma espécie de colagem. A composição é construída num papel à parte e posteriormente aplicada sobre o tecido de base, como se fosse uma monotipia. Assim não há um acúmulo de imagens em vários planos, mas uma fusão totalmente linear e às vezes surpreendente. Aliás, a formação básica de Duclos é a gravura e não a pintura, como suas obras parecem indicar.
Duclos considera que seu trabalho atual teve início há dez anos, quando começou a constituir o arquivo de imagens, classificadas em diferentes categorias como animais, objetos ou palavras, que constituem a base de sua produção nesse período. "A partir de 83, começo a configurar um alfabeto; em 89 ele começa a ficar indepedente e dá origem a uma linguagem", explica.
Esse banco de palavras e imagens, que provém de distintos lugares, tem relação com um episódio das "Viagens de Gulliver", no qual o herói chega a uma ilha onde trabalham pesquisadores de várias áreas e que possuem uma biblioteca riquíssima. Esses livros eram produzidos localmente, por um sistema que mesclava acaso matemático - uma mesa com todas as palavras e repleta de manivelinhas ativadas ao acaso - e a capacidade dos autores de lerem no painel as palavras que lhes interessam.
O mesmo ocorre em seus trabalhos. Como autor, ele combina os elementos como lhe convém, criando metáforas complexas como garrafas, pratos e outros recipientes para simbolizar os Sefirot (cada galho que compõe a árvore da vida), mas não pretende que as pessoas traduzam literalmente suas interpretações. "Explicar a obra produz muita confusão e o que eu quero é seduzir o espectador", resume.
Esse acúmulo de símbolos variados, encontrados nos diferentes lugares e países, têm, segundo o artista, "uma estreita relação com a idéia de formação da arte contemporânea". Mas isso não quer dizer que a obra de Duclos não tenha sido fortemente influenciada pela cultura de seu país. O artista começou sua carreira no início dos anos 80 participando ativamente de um grupo multidisciplinar de artistas e intelectuais chilenos que se uniram como forma de resistência ao regime militar e numa tentativa de criar válvulas de escape à opressão política, reforçada pelo isolamento cultural e geográfico de um país como o Chile.
Mas, ao contrário das gerações anteriores e dos jovens de hoje, a atitude de confronto foi abandonada por uma certa discrição. "Abraçamos idéias que vinham do pós-estruturalismo, usávamos formas cifradas metafóricas e altamente simbólicas", diz Duclos. Segundo ele, essa estratégia de dar voltas na linguagem para passar a mensagem desejada marcou muito sua maneira de trabalhar. Outra herança importante foi o contato com várias outras formas de expressão, sendo profundamente influenciado pela literatura e pela música.
Segundo ele, essa trama intricada entre diferentes dimensões culturais e estéticas é uma característica marcante da produção latino-americana dos últimos 20 anos. "Não podemos negar que nosso sistema de trabalho é europeu ocidental, mas os próprios europeus acabam isolando-nos desse modelo como se fôssemos um irmãozinho caçula, de menor importância", define Duclos. "Além disso, habitamos outro continente, o que modifica a nossa cartografia mental, criando dessa forma uma trama, um tecido complexo na qual a maioria da arte latino-americana repousa", diagnostica o artista.
Serviço - Arturo Duclos. De segunda a sexta, das 11 às 19 horas; sábado, até 14 horas. Galeria Thomas Cohn. Avenida Europa, 641, em São Paulo, tel. (011) 883-3355. Até 3/7. Abertura às 20 horas.


