Duas vezes CACÁ CARVALHO
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segunda-feira, 18 de junho de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Existe um lugar chamado sertão, que tanto pode ser o das Minas Gerais ou o do Cariri, no Ceará, porque os sertões estão no coração - um território inóspito, onde há chuva fininha e que, gota a gota, vai sendo molhado com a vida. Um lugar para ser explorado e que o elenco do grupo Casa Laboratório para as Artes de Teatro percorreu nas léguas de Guimarães Rosa em ''O Homem Provisório''. O espetáculo estréia quinta-feira, às 21 horas, na Usina Cultural, trazendo ao 39º Festival Internacional de Londrina, o trabalho de direção de Cacá Carvalho, que também se apresenta hoje e amanhã com o monólogo ''O Homem com a Flor na Boca'' na mesma sala de apresentação.
Para chegar a esse lugar, o grupo enfrentou o desafio de não querer a palavra, que tanto bem faz em Guimarães Rosa no ''Grande Sertão: Veredas'', obra clássica do escritor, que serviu de inspiração para a peça.
Com a história e o trabalho do Centro Per La Sperimentazione e La Ricerca Teatrale, em Pontedera, sobre os ombros, onde além de ator é pedagogo e diretor-assistente, Carvalho está tentando construir uma ponte entre a pesquisa na Itália e os atores brasileiros da Casa Laboratório.
Carvalho está levando para o sertão de Guimarães, um elenco que, futuramente com esse trabalho, tenha autonomia criativa de produção de material, partindo de uma seleção inicial de atores em que participou 700 candidatos, sendo selecionados um total de 10.
'''O Homem Provisório'' nasceu de uma tragédia. No dia da estréia de 'A Sombra do Quixote', primeiro trabalho do grupo, estávamos com tudo pronto, inclusive um coquetel, mas uma tempestade, em São Paulo, fez com que quase ninguém fosse assistir a gente. Uma moça me falou: 'Por que vocês não montam outra coisa, quem sabe um Guimarães Rosa?'. Eu pensei: 'Não é possível que essa noite não dê em nada''', lembra Carvalho.
Não querendo se submeter à crueldade dos humores comum às famílias de alguns autores, Carvalho arrumou a matula para essa viagem a Guimarães, contando com a preparação vocal de Francesca Della Mônica, que ajudou os atores a tirarem as palavras da boca.
Ele pegou tudo o que estava na obra, Riobaldo, Diadorim, o pacto com o diabo, e propôs que o elenco criasse três minutos sonoros e outros três de situações cênicas, enchendo as mãos com 60 minutos de material. Numa travessia pelo sertão de Guimarães, Carvalho abriu o mar da pesquisa teatral, levando o grupo para Nova Olinda, no Cariri, onde passaram 40 dias estudando a cultura local.
O grupo encontrou Geraldo Alencar, parceiro do autor de cordéis Patativa do Assaré, que acabou escrevendo os poemas do espetáculo, que resultou num livreto ilustrado por seu Nilo, que fez as 30 xilogravuras, que acompanham as poesias. ''Alencar ainda não viu o espetáculo, mas ele tem uma capacidade incrível de produzir sonetos'', avalia Carvalho, que o público em geral conhece da TV pelo personagem ''Jamanta''.
Carvalho também estréia no FILO ''O Homem com a Flor na Boca'', de Luigi Pirandello, com direção de Roberto Bacci em que vive um personagem na sua noite escura. Após descobrir que está com câncer, mergulha no poço da própria existência. ''A partir desse momento não tem como voltar. É a noite de todos nós. Você é o que está atrás e não na frente'', conclui Carvalho.


