Duas trilhas iluminadas
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sábado, 14 de setembro de 2002
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Milton Nascimento explica que foi o coreógrafo norte-americano David Parsons foi quem o incentivou para que as trilhas sonoras do balé Corpo saíssem em CDs ao amigo, o mineiro fez a trilha ''Nascimento'' e a inédita ''Cores e Vozes'', que devem ser igualmente lançadas pelo novo selo. Dois DVDs com shows de Milton devem chegar ao mercado ainda neste ano.
As trilhas de ''Maria Maria'' e ''Último Trem'' são envoltas em uma certa melancolia. Não tristeza, mas uma dorzinha tão latente quanto à genialidade de Milton Nascimento. Tais discos só vêm confirmar o que todo mundo já sabe há anos: Milton é um artista iluminado. A seguir, a entrevista que o cantor, compositor e instrumentista concedeu à Folha2
Por que você criou o selo para o lançamento dos discos. Sua atual gravadora não abarcaria o projeto?
Acho que sim, mas eu queira ter um selo há muito tempo e as coisas acabaram confluindo para que eu pudesse realizar esse desejo agora, quando a recuperação dessas trilhas ficou completa. A opção por um selo para mim era uma etapa natural, uma vez que além dos ''masters'' dessas trilhas que são meus, tenho a propriedade de dois outros ''masters'' de duas outras trilhas uma feita para o David Parson e outra ainda inédita, o do meu primeiro disco ''Travessia'' que agora, inclusive, licenciei para a Dubas e os ''masters'' de dois DVDS que estaremos lançando ainda esse ano: a ''Sede do Peixe'', feito com a Conspiração e ''Tambores de Minas'', feito com o Multishow. Eu gosto muito de estar na Warner e sou muito bem tratado, mas acho que essa opção por um selo,talvez seja um caminho irreversível na minha carreira.
Na época em 76 e 80 você não pensou em registrar as trilhas em disco?
Não. Elas foram feitas para os balés, com uma única cópia mixada e entregue ao Corpo para as turnês. Só em 90, quando fiz a trilha para o David Parsons que comecei seriamente a pensar nessa possiblidade. Como você pôde ouvir, nas trilhas feitas para o Corpo eu usei fonogramas que já faziam parte de outros discos (''Milagre dos Peixes'', ''Geraes'' e ''Clube da Esquina 2''). As outras, registradas originalmente para os balés, eu regravei mais tarde nos discos da (BMG) Ariola. Quase tudo ficou conhecido.
As músicas acabaram sendo diluídas em discos seus e de outros intérpretes. As inéditas estavam arquivadas onde? Me conta um pouco o processo de resgate das trilhas.
As inéditas ficaram só nas fitas de 2 polegadas (analógicas) originalmente usadas na gravação e na fita mixada entregue ao Corpo para as turnês. A recuperação começou quando fui a Londres mixar os meus discos e levei as trilhas. Lá elas foram remixadas em digital. Há dois anos eu fiz a primeira montagem da trilha. No começo desse ano retomei o projeto e pedi ao Corpo a trilha original para retirar delas os textos, os ruídos e outros detalhes. Ficou tudo OK, faltando apenas um sino, que no ''Último Trem'' era tocado ao vivo. Levamos um sino pro estúdio e tocamos. Ficou jóia!
''Maria, Maria'', hoje um clássico da MPB, aparece sem letra. Na época o Fernando Brant já havia colocado letra ou isso aconteceu depois (quando)?''
A música foi feita sem letra mesmo, só com texto do Fernando que eu falo. Bem mais tarde é que veio a letra.
Aliás, Maria Maria foi composta num ambiente festivo-familiar. Como você conseguiu se concentrar? Seu processo de criação necessita de intimidade ou tanto faz?
Eu sinceramente prefiro confusão ao sossego. E as trilhas, principalmente ''Maria, Maria'' foram feitas assim: em casa, com um bando de amigos e afilhados passando as férias de verão: uma zona mesmo. E eu achei tudo ótimo e até hoje prefiro bagunça à calmaria para tudo, inclusive para compor.
A Fafá de Belém (sensacional, diga-se), Nana Caymmi e Zezé Motta aparecem nas trilhas. A seleção das intérpretes femininas obedeceu a algum critério ou foi apenas afinidade?
Não, eu achei que cada música tinha a ver com cada uma delas, intuitivamente como faço quase tudo. E elas foram umas deusas, como sempre!!
Voltando às trilhas do disco, você compôs as canções com base no roteiro? Você seguiu orientação dos coreógrafos quanto ao andamento das canções?
Olha, eu, o Fernando e o Oscar, o coreógrafo argentino que fez os dois trabalhos, fizemos tudo muito juntos. Tínhamos uma idéia que ia tomando forma a partir dos textos do Fernando, da minha música e das coreografias do Oscar. Foi bom de fazer e confesso que tenho hoje muitas saudades desses momentos.
O novo disco sai quando. Dá para adiantar alguma coisa?
Sai no fim de novembro e eu lamento, mas não vou falar nada ainda não. Só que há muito tempo, eu não curtia tanto um trabalho como esse que estou fazendo agora. Tá ficando lindo.
Em outubro você completa 60 anos. Já dá para olhar para atrás e fazer um balanço da vida pessoal e profissional?
Esse negócio de olhar pra trás é meio complicado e eu confesso que não tenho esse hábito. Meu negócio é olhar pra frente. Quanto à questão da idade cronológica, eu falo que tem gente mexendo tanto na Terra que ela disparou e tá indo muito mais rápido do que devia. Eu acho que gosto de tudo em mim hoje mais do que, sei lá, 20, 30 anos atrás. Tô feliz, cheio de vontade de trabalhar e amor pra dar. Como dizem lá em Minas, ''tá é bão dimais da conta!!''


