Ela tem uma ligeira dislexia. Já se envergonhou disso, já se preocupou com isso, mas hoje nem liga. À moda antiga, escreve muitas cartas, nas quais se enrosca com os ''s''. Quando percebe os erros, faz uma careta e dá um tapa na testa - um gesto gracioso. Assim como têm charme seus ataques de riso, que ganharam fama pela duração, altura e intensidade. Ela ri como se fosse a última vez, chega até a chorar. E fala como se estivesse interpretando. Movimenta-se muito e em todas as direções.
Ela gosta de dançar, e o faz muito bem, modéstia à parte. É algo dela, para ela, quando dança se sente livre - e consegue ser muito atraente, querendo ou não. Ela gosta de filmes trágicos, de cadeiras confortáveis, de potes de todos os tamanhos, de etiquetas, de sapinhos desenhados. Ela gosta de chocolate furiosamente, qualquer tipo, qualquer marca. Ela detesta atrasos.
Ela odeia seus pés, principalmente por causa do dedinho, mas adora suas mãos. Recebeu elogios por uma combinação de esmaltes vermelhos que descobriu: Dara, Rebu e Rubi. Em compensação, foi delicadamente aconselhada a não clarear tanto o cabelo. Não deu bola para a opinião, gosta dele assim mesmo - embora admita que as raízes dêem trabalho.
Ela tem um irmão e uma irmã e se dá bem com eles, apesar da diferença de idade. Ela tem uma mãe meio neurótica, com mania de limpeza. O pai às vezes grita sem motivo aparente, deixando-a magoada. Mas sente falta de todos eles, agora que mora longe. Ela tem um umbigo esquisito. Ela tinha cólicas terríveis, de modo que continua tomando pílula, mesmo agora sem uma vida sexual das mais ativas. Ela nunca fingiu um orgasmo, mas já valorizou bastante. Ela já deixou de ficar com um cara porque ele tinha muitos pêlos no nariz.
Naquele dia em que tirou o sapato e ficou descalça, ela não sabe, mas estava muito sexy. Naquele dia em que seu cachorro morreu, ficou aterrada, nunca mais quis outro. Naquele dia em que entrou na contramão sem querer, foi xingada, ficou assustadíssima - mas depois achou engraçado. Naquele dia em que disse ''Nunca mais'', sabia que não era sério.
Ela inventa palavras quando não sabe como dizer algo. Ela teve seu nome escolhido por causa de uma canção antiga. Mesmo sem uma grande voz, ela não deixa de cantar quando quer. Ela quer desesperadamente perder dois quilos. Ela quer, no futuro, dois filhos. Ela quer carinho e atenção. Ela chora como se fosse a primeira vez.
Com tudo isso, é mesmo uma pena que seu strogonoff saia sempre um verdadeiro desastre.

ANDRÉ SIMÕES é jornalista em Londrina

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