As distribuidoras não descansam e reforçam o abastecimento de munição miúda para o que ainda resta das férias. Ao primeiro sintoma de folga no circuito, novos títulos chegam para preencher pequenos nichos que se abrem entre os resistentes megalançamentos da temporada. Na mira, claro, o imberbe espectador que na bilheteria vale sempre inteira e meia – a tiracolo, o inevitável e nem sempre resignado adulto. As atrações podem não ser propriamente relevantes, mas diante da bateria de marketing televisivo estrategicamente plantada, fica difícil resistir aos apelos da garotada. Neste fim de semana, no entanto, caso não haja contratempos na meteorologia, a grande concorrência ao exibidor corre por conta da irresistível fórmula ar livre/céu azul/sol forte, de resto combinação sempre funcional contra o escurinho do cinema.
Com dois anos de atraso, da Argentina chega um simpático desenho animado de longa-metragem. Realizado pelo animador Manuel Garcia Ferré, ‘‘A Tartaruga Manuelita’’ (veja a programação de cinema na página 2) fez muito sucesso no país de origem e nos vizinhos de fala hispânica, sendo ainda bem recebido na Espanha. O filme, inspirado numa canção infantil da escritora Maria Elena Walsh, conta a história da pequena Manuelita. A tartaruguinha sai de seu minúsculo povoado e acaba desfilando prêt-à-porter nas passarelas da moda em Paris. Estressada pelo sucesso e pelo agito da cidade grande, a filha pródiga acaba voltando para os amigos verdadeiros e para a vida simples e tranquila do lar doce lar.
O traço de Garcia Ferré, que iniciou carreira como animador na televisão argentina em 67, é francamente de inspiração disneyana, e seu débito para com o antropomorfismo – animais humanizados – de personagens clássicos da galeria Disney é inequívoco. Mas assim como no recente exemplo brasileiro de ‘‘O Grilo Feliz’’, esta característica predominante não desmerece o resultado final. O veterano artista argentino sabe como mesclar a tecnologia de ponta, inclusive com a utilização de técnicas de animação digitalizada, com a velha e sempre criativa elaboração do cartoon gráfico, tradicional.
Numa tentativa de dourar uma pílula em tese de complicada assimilação pelas platéias de crianças brasileiras – ‘‘um desenho animado argentino ?!’’ –, a Warner apelou para recurso artístico no mínimo dispensável: convocou para a dublagem duas animadoras (quem mesmo?) da tevê brasileira, Jacqueline Petkovic e Babi. Sem carisma e sem timbre reconhecível como marca registrada de personalidade de vídeo, as vozes poderiam ser as de quaisquer dubladoras profissionais, que inclusive tentam ganhar a vida apesar de apropriações indébitas como neste caso.
A segunda opção para a garotada é ‘‘Dragon Ball Z - Batalha nos Dois Mundos’’, de difícil localização no calendário de produções da série iniciada no Japão por volta de 1987, embora as pistas indiquem 1999. Dirigido por Shigeyasu Yamauchi, o filme é um desses teleprodutos alongados, outra bobagem na linha ‘‘Pokémon’’, com pancadaria e violência marcial a cargo de personagens diariamente levados aos menores pela globalizada Angélica. Embora predominante na rede mundial de televisão, e volta e meia invadindo os mercado internacional, este definitivamente não é o melhor da fecunda escola japonesa de animação, mas apenas o lado visível e absolutamente descartável.

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