Nelson Sato
de Londrina
Há sempre um sujeito, um livro e um punhado de idéias insuflando grandes reviravoltas históricas. O filósofo judeu-alemão Herbert Marcuse foi o guru teórico de Maio de 68. Morreu esquecido há 20 anos, mas durante um bom tempo levou às ruas toda uma geração de rebeldes.
Nasceu em Berlim, em 1898. Ligou-se nos anos 30 ao grupo de intelectuais da célebre Escola de Frankfurt depois de se desentender com o não menos célebre filósofo Martin Heidegger, do qual rejeitou um honroso convite para trabalhar como assistente na Universidade de Berlim. O motivo, segundo relato controverso de alguns, teria sido a simpatia do mestre pelo nazismo.
Foi o nazismo, aliás, que o obrigou a sair do país exilando-se sucessivamente na Suíça, França e Estados Unidos. Na América, Marcuse juntou-se aos sociólogos Theodor Adorno e Max Horkheimer no Instituto de Pesquisas Sociais onde desenvolveu projetos coletivos - como uma coletânea de artigos sobre ‘‘Autoridade e família’’ - e esboçou ensaios para os livros de sua maturidade.
Entre as idéias articuladas nesse período figuram a preocupação com o desenvolvimento incontrolado da tecnologia, o racionalismo dominante nas sociedades modernas, a repressão às liberdades individuais e o aniquilamento da razão - e, por razão, Marcuse entende o sentido hegeliano deste conceito, ou seja, a possibilidade do homem desenvolver inteira e livremente suas potencialidades.
Uma coletânea de textos inéditos dessa fase, aliás, deve sair em breve pela editora Unesp sob o título Tecnologia, Guerra e Fascismo. Mas é só a partir de 1941 que Marcuse começa a apresentar suas teses em volumes tão complexos quanto inflamáveis. Primeiro publica Razão e Revolução, depois lança Eros e Civilização (1955), O Marxismo Soviético (1958) e O Homem Unidimensional/One Dimensional Man (1964) - esta última obra recebeu título no Brasil de A Ideologia na Sociedade Industrial).
É o livro que lhe rendeu maior reputação ao lado de Eros e Civilização. Enquanto neste o pensador combina os pensamentos de Marx e Freud articulando as bases para uma teoria da sociedade a partir das idéias do psicanalista a respeito da estrutura psíquica do indivíduo, naquele ataca violentamente as características repressivas e irracionais do estado pós-industrial moderno, o ‘‘welfare-state’’ (estado de bem-estar social) que ele chama de ‘‘warfare state’’ (estado de guerra).
Já famoso nos círculos pensantes, Marcuse ganha projeção internacional durante as revoltas estudantis de ‘‘maio de 68’’, quando passa a ser citado em entrevistas por líderes do movimento como Daniel Cohn-Bendit (na França) e Rudi Dutschke (na Alemanha). Nas ruas, seu nome é aclamado na palavra de ordem ‘‘Mao, Marx, Marcuse’’. Nos Estados Unidos, a organização racista Klu-klux klan ameaça-o de morte chamando-o de ‘‘asqueroso comunista’’.
Mais tarde, naturaliza-se americano e radicaliza suas posições políticas tornando-se uma referência para a nova esquerda americana. Participa de protestos estudantis contra a guerra do Vietnã e passa a defender o movimento black-power andando pra lá e pra cá com a ativista negra e feminista Angela Davis.
Na década de 70, sua fama desce ao nível de meio fio acompanhando a retração dos movimentos de rebeldia. Marcuse morre de distúrbios cardíacos no dia 29 de julho de 1979, aos 81 anos, quando já estava relegado ao ostracismo sob o estigma de pensador datado.Hoje faz exatamente 20 anos que morria o filósofo alemão Herbert Marcuse, guru da rebelião estudantil de maio de 68
ReproduçãoMarcuse: aclamado nos círculos pensantes, saudado por líderes estudantis e considerado um ‘‘asqueroso comunista’’ pela Klu-klux klan

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