Como a temperamental Dinorá de ‘‘O Cravo e a Rosa’’, Maria Padilha está completando 20 anos de carreira. No total, foram dez novelas e três minisséries na Globo
Maria Padilha encerra o ano 2000 completando duas décadas de carreira na televisão. Dona de um jeito sereno e uma voz extremamente suave, a atriz ainda se constrange ao lembrar da sua primeira aparição em ‘‘Água Viva’’, novela de Gilberto Braga em que vivia uma típica adolescente da Zona Sul carioca. ‘‘A personagem levava uma vida parecida com a minha. Eu vivia na praia e falava um carioquês bem arrastado também’’, confessa Maria Padilha. Após 20 anos, dez novelas e três minisséries no currículo, ela dá risada da ingenuidade em que aparecia em frente as câmaras e vibra com a sua personagem Dinorá na novela ‘‘O Cravo e A Rosa’’. ‘‘Não podia comemorar a data em melhor estilo. Minha personagem é saborosa e a novela está com uma audiência surpreendente’’, empolga-se a atriz de 38 anos.
Na verdade, a novela das seis da Globo também serve para Maria Padilha se reencontrar com o diretor Walter Avancini e o ator Ney Latorraca. Com o diretor, a atriz chegou a fazer no cinema o filme ‘‘Boca de Ouro’’, uma adaptação da peça de Nélson Rodrigues. ‘‘O Avancini era uma peste, mas agora está bonzinho. A novela faz sucesso graças a mão de ferro dele na direção’’, elogia a atriz. Já com Ney Latorraca, que faz seu marido submisso em ‘‘O Cravo e A Rosa’’, Maria Padilha chegou a contracenar no filme ‘‘Das Tripas Coração’’, de Ana Carolina, e na novela ‘‘Eu Prometo’’, de Janete Clair. ‘‘Trabalhar com o Ney é sempre uma festa’’, afirma a atriz.
Com contrato com a Globo até março de 2001, Maria Padilha faz questão de ressaltar que não chegou a ficar aborrecida em ter participado de ‘‘Malhação’’ no ano passado, como foi comentado na época. ‘‘Até hoje tenho trauma deste acontecimento. Foi minha pior experiência com a imprensa’’, revela a atriz.
Você arriscaria uma comparação entre o modo de interpretar na tevê na sua estréia, em 1980, para o momento atual?
Quando estreei em ‘‘Água Viva’’, a proposta era fazer algo naturalista. Quase como se o ator fosse o próprio personagem. Interpretava uma jovem do Posto 9 de Ipanema, que tinha um sotaque carregado. Era bem parecido com a minha realidade da época. Porque fui jovem de Ipanema. Estes dias revi algumas cenas de ‘‘Água Viva’’ no ‘‘Vídeo Show’’ e estranhei muito. Não sabia que, por meu personagem na novela ser pequeno, teria de valorizar até as vírgulas. Mas não tinha experiência e por isso ficou meio esquisito. Para se ter uma idéia, nesta época jovem não se maquiava na tevê. Não tirava olheira ou usava sequer um blush. Como vinha de casa a gente gravava. Era uma proposta que se ampliou em novelas como ‘‘Pecado Capital’’ e ‘‘Dancin’Days’’. Ver os atores na tevê como pessoas que a gente via na rua. Hoje em dia não. Todas as meninas de ‘‘Malhação’’, por exemplo, usam rímel e maquiagem. No início dos anos 80 era cafona o ator arrumar o cabelo. Isso acabava com a fama de qualquer galã.
Como que é fazer a personagem de ‘‘O Cravo e A Rosa’’, que transita pela vilania, o sensual, o drama e a comédia?
É ótimo justamente por isso. Mas busco seguir a orientação do Avancini, que é fazer uma comédia mais contida. Até porque tem o Ney Latorraca e a Eva Todor no meu núcleo que já são mais soltões. Confio no Avancini e vou na onda. Na verdade, dividi as relações da Dinorá. Quando está com o amante, por exemplo, a Dinorá vira adolescente sonhadora. Mas ela gosta mesmo é de fazer armação. A mãe dela era prostituta e o único valor que passou para os filhos foi o materialismo. E quando conhece o Celso, o amante, começa uma confusão na cabeça dela. Estou curtindo a novela, principalmente porque estamos com quatro blocos adiantados. Nunca tinha gravado uma produção com tanta folga. É bom porque o elenco não fica nervoso e o autor pode fazer o roteiro com tranquilidade. A verdade é que está sendo muito bom completar 20 anos de televisão com uma personagem tão rica e uma produção indo tão bem no Ibope.
Você foi dirigida pelo Avancini no filme ‘‘Boca de Ouro’’, em 1989. Como é encontrá-lo na televisão?
O Avancini era uma peste, mas agora está bem mais calminho. Todo o elenco da novela ama o Avancini, mesmo ele sendo muito exigente. No começo da novela fiquei tensa. Mas descobri que o processo do Avancini é difícil, mas o resultado é muito bom. Então comecei a valorizar este resultado. Mas ele é um diretor de ator e faz isso muito bem. Nunca havia trabalhado com um diretor tão disciplinado. Ele tem o controle de tudo. Mas hoje em dia está bem mais doce e humorado. Ele realmente tem uma mão de ferro e é o responsável pelo sucesso da novela. Acho que quem não gosta de ser dirigido, não está a fim de se transformar, não deve trabalhar com o Avancini. Porque ele vai querer mudar algo em você e normalmente esta mudança é para sempre. Adoraria fazer algo mais trágico com ele, tipo ‘‘Morte e Vida Severina’’ e ‘‘Grande Sertão Veredas’’.
Você é contratada da Globo desde 1996. Ser funcionária é mais vantajoso do que ter contrato por obra?
Antes só fazia contratos por obra e esta é a primeira vez que estou com um compromisso mais longo. Se tirar a glamourização, o trabalho do ator é como outra profissão qualquer. Claro que é interessante ter contrato com uma emissora que mais dá certo no Brasil e que proporciona trabalhos de qualidade. A Globo é como se fosse a nossa Hollywood. É a nossa indústria de entretenimento. Então é legal buscar o lado artesanal no cinema e teatro, mas ter também esta experiência industrial na tevê.
Por outro lado é mais difícil dispensar alguns convites, como aconteceu com você em ‘‘Malhação’’ no ano passado...
Mas não considerei um desprestígio porque ‘‘Malhação’’ ganhou na época um tratamento de novela. E tinha algumas vantagens, porque não gravava muito e dava para organizar atividades paralelas. E achei bacana, porque ‘‘Malhação’’ passou de 20 pontos para 30 na época.
Você aceitaria então participar novamente de ‘‘Malhação’’?
É difícil dizer desta água não beberei. Não sei, depende das circunstâncias. Acho que este rótulo pejorativo de ‘‘Malhação’’ é totalmente errado. Se tiver uma posição elitista em relação à ‘‘Malhação’’ vou cair na asneira de achar que uma novela é melhor que a outra. Não quero ser uma atriz ‘‘cult’’ no terceiro mundo. É cafona. Pode-se ter um bom personagem em ‘‘Malhação’’ e ter um papel terrível na novela das oito. Eu mesma já fiz ‘‘O Mapa da Mina’’, que foi um desacerto muito maior que ‘‘Malhação’’. E ‘‘O Mapa...’’ tinha o genial Cassiano Gabus Mendes como autor e um elenco só de feras. Por isso, odiei as matérias que saíram na época de ‘‘Malhação’’ dizendo que não estava feliz na novelinha. Porque nunca quero parecer uma atriz reclamona. Se não gostar do que está fazendo, o ator deve transformar a sua vida. Não dá para ficar de nhenhenhém com tanta gente desempregada no Brasil.