DUAS CRIANÇAS DO ABSURDO
Último livro escrito por Lewis Carroll, ‘‘Sílvia e Bruno’’, ganha sua edição brasileira
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Reprodução Quando chegava em casa, o professor de matemática e diácono inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832 - 1898) tirava a pele de homem sério e colocava a de um escritor de histórias malucas. Vestindo a pele de Lewis Carroll, criou o clássico ‘‘Alice no País das Maravilhas’’ e outras histórias.
Entre essas outras histórias está ‘‘Sílvia e Bruno’’ (Sylvie and Bruno), considerada sua obra mais radical, e que levou 16 anos para ser concluída. Originalmente publicada em duas partes, em 1889 e 1893, a história não obteve o sucesso de ‘‘Alice no País das Maravilhas’’. Os leitores esperavam uma bela história infantil linear, como a de Alice, e encontraram o caos em absurdo.
A volumosa obra narra as aventuras de Sílvia e Bruno, duas crianças-fadas que perambulam entre o mundo real e o imaginário (o País do Outro Lado). Não possui um enredo definido, mas várias histórias e devaneios que se seguem aleatoriamente. O objetivo de Lewis Carroll era criar uma literatura experimental. Partiu de vários episódios para traçar uma trama entre eles. Desejava fazer o inverso do que normalmente os escritores faziam, quando partiam de uma trama para traçar a história. Assim, ergueu duas histórias paralelas, uma que usa elementos do real e outra que acontece no imaginário. Paralelas que se cruzam desafiando o infinito.
ReproduçãoParte destes episódios está em ‘‘Algumas Aventuras de Sílvia e Bruno’’, lançado pela Editora Iluminuras, com tradução de Sérgio Medeiros. O livro compreende apenas 24 capítulos dos 50 originais. Uma seleção que se propõe a apresentar ‘‘as melhores aventuras’’ da fada Sílvia e seu irmão mais novo, o duende Bruno.
Geralmente apontado como um livro enfadonho para crianças e adultos, a presente edição de ‘‘Sílvia e Bruno’’, trazendo fragmentos, reduz esse peso - mas não chega a eliminá-lo. Trata-se de uma obra povoada de pontos altos e baixos com todas as característica de outras obras de Lewis Carroll: nonsenses, paradoxos, jogos lógicos e ilógicos, de sentidos e não-sentidos.
Existem dezenas de pequenas histórias nonsense dentro de ‘‘Algumas Aventuras de Sílvia e Bruno’’, que funcionam como exercício de lógica/ilógica. Uma delas é a seguinte: ‘‘Um cientista amigo meu, que já realizou várias viagens de balão, contou-me que visitou certa vez um planeta muito pequeno: em 20 minutos, ele percorreu toda a sua superfície! E ele ainda presenciou lá uma batalha entre dois exércitos, que terminou de maneira bem curiosa: o exército fugiu a toda velocidade e poucos minutos depois encontrou-se face a face com o exército vitorioso, que voltava para casa - este assustou-se tanto quando percebeu que ficara entre dois exércitos, que se rendeu imediatamente! Naturalmente, depois, os soldados vitoriosos perderam a batalha, embora, para todos os efeitos, os soldados inimigos estivessem todos mortos’’.
Mas como os soldados, estando mortos, fugiram? Carroll prossegue: ‘‘Neste pequeno planeta, as balas são feitas de uma matéria escura e macia, que deixa uma marca em tudo o que toca. Assim, ao final de cada batalha, ambos os exércitos se põe a contar o número de soldados ‘mortos’, isto é, o número de soldados ‘marcados’ nas costas, pois as marcas no peito não valem’’. Neste caso, a primeira coisa a se supor é que os soldados só poderiam matar o inimigo pelas costas, quando estivesse fugindo. Mas a história é outra: ‘‘Meu amigo cientista concebeu um estratagema melhor que esse. Ele mostrou aos dois exércitos que as balas, quando atiradas para trás, dariam a volta pelo globo e atingiriam o inimigo pelas costas. Depois disso, o pior atirador foi considerado o melhor soldado, e o pior de todos recebeu a Grande Medalha - O melhor tiro, você sabe, é aquele que atinge o alvo que está à frente do atirador. Ora, o pior tiro, evidentemente, é aquele que atinge o alvo que está às costas do atirador’’.
Esse pequeno planeta possui outra particularidade. Quando normalmente uma nação é constituída por um rei e vários súditos, lá acontece o inverso, vários reis para um único súdito: ‘‘Parece-me que esse método de governo funciona muito bem. Veja você: os Reis sem dúvida farão Leis contraditórias, mas o súdito, em compensação, jamais poderá ser punido, pois, não importa o que ele faça, ele estará sempre obedecendo a alguma Lei’’. Neste ponto nasce o paradoxo. Qualquer coisa que o súdito faça, também estará desobedecendo alguma lei e por isso será punido a todo momento.
• Algumas Aventuras de Sílvia e Bruno , de Lewis Carroll, tradução de Sérgio Medeiros, 286 páginas, R$ 26,00/Livraria Rosa do Povo (fone: 043/321-5691).

mockup