Gilberto M. Amado Filho
Texto reproduzido
da Ciência Hoje
Quando o irlandês Ernest Shackleton (1874 - 1922) decidiu empreender sua Expedição Imperial Transantártica, em 1914, já era um herói nacional na Grã-Bretanha por ter participado de duas expedições polares (1902 e 1907), numa das quais chegou a menos de 200 km do Pólo Sul, o ponto mais ao sul do planeta até então alcançado por um ser humano. O livro ‘‘Endurance: a lendária expedição de Shackleton à Antártida’’, de Caroline Alexander, narra uma das maiores aventuras de sobrevivência da história das expedições.
A exploração da Antártida no início do século 20 era diferente de todas as explorações que já haviam ocorrido no planeta. Quem barrava o caminho dos exploradores pioneiros não eram as feras ou nativos selvagens. Com ventos que chegavam a velocidade de quase 300 km/h e temperaturas que atingiam extremos de 75øC negativos, os confrontos essenciais eram simples e descomplicados: de um lado, entre o homem e a força desenfreada da natureza em estado bruto e, de outro, entre o homem e os limites de sua própria resistência, sua capacidade de enfrentar e superar condições adversas (justamente o significado de endurance, nome do barco usado na aventura, em inglês).
Após a notícia de que o explorador norueguês Roald Amundsen venceu a corrida contra o inglês Robert Falcon Scott em 1911 (leia texto nesta página) para chegar ao Pólo Sul, Shackleton inicia em 1914 um novo desafio: percorrer a pé o continente antártico desde o Mar de Weddell até o Mar de Ross. Em 5 de dezembro, Endurance parte da Ilha da Geórgia do Sul, levando a bordo, além da tripulação normal, um grupo heterogêneo de oficiais e cientistas, somando ao todo 28 homens e mais 69 cães de trenó.
Os quatro cientistas (um biólogo, um geólogo, um meteorologista e um físico) da tripulação tinham o objetivo de realizar sondagens geológicas e hidrológicas no continente, a partir de uma base instalada no Mar de Weddell. Entretanto, apenas dois dias após a partida, o navio atingiu a margem de um banco de gelo, e, durante seis semanas, avançou lentamente para o sul, por vezes abrindo caminho à força, quebrando o gelo à sua frente.
A participação de James Francis Hurley, um talentoso fotógrafo australiano, na expedição foi de inestimável valor pelas fotos belíssimas e muitas vezes dramáticas que estão em parte reproduzidas neste livro de Caroline Alexander e que também fazem parte de uma exposição, com o nome do livro, que permanece no Museu Americano de História Nacional, em Nova York, até outubro. Hurley escreveu em seu diário no início da aventura ‘‘O ar é tão estimulante, que mal podemos deixar de nos entregar à música e de cantar teus encantos, oh, terra de maravilhas!’’
Durante um longo período, de 18 de janeiro a 27 de outubro de 1915, o Endurance permaneceu aprisionado a uma banquisa de gelo à deriva no Mar de Wenddell, quando então a tripulação abandonou a embarcação, que foi esmagada pelo gelo. Retirando tudo o que fosse possível do navio, a tripulação acompanhou na banquisa e Shackleton, procurando manter a moral do grupo, organizou uma rotina diária de tarefas, diversão e confraternização. Perto do final de fevereiro, um dos tripulantes descreveu: ‘‘agora comemos praticamente só carnes, bifes de foca, ensopado de foca, carne frita de pinguim, ensopado de pinguim, fígado de pinguim...’’ Em 8 de abril de 1916, a banquisa se partiu e reduziu-se a um triângulo de mais ou menos 80 x 90 x 110 m. Shackleton decidiu então lançar os três barcos salva-vidas ao mar: ‘‘os homens tinham ficado 15 meses no gelo. Mas suas verdadeiras provocações mal tinham começado’’.
Após terem passado sete dias em barcos abertos em pleno Atlântico Sul e 497 dias sem pisar em terra firme, finalmente a tripulação desembarcou na Ilha Elefant. ‘‘Não dormi muito’’, lembra o tripulante Bakewell, ‘‘só fiquei ali em meu saco de dormir úmido relaxando. Foi difícil me convencer que estava novamente em terra firme’’. No final de abril, Sheckleton partiu com cinco homens no maior dos três barcos salva-vidas (o Caird com 22 pés ou cerca de 70 m) para uma travessia de 1.300 km pelo mais terrível trecho de oceano do planeta, em pleno inverno, com o objetivo de chegar à estação baleeira da Geórgia do Sul. Durante 16 dias o Caird empreendeu uma façanha – ou milagre – da navegação, que seria classificada por autoridades como uma das maiores jornadas por mar jamais realizadas.
Finalmente, em 20 de maio de 1916, Shackleton e dois tripulantes, após caminharem por 35 km pelas escarpadas montanhas da Ilha da Geórgia do Sul, chegaram até a estação baleeira na baía Stromness, de onde começam a organizar o resgate dos homens que havia ficado para trás.
Toda aventura comandada por Shackleton foi registrada em impressionantes relatos nos diários de bordo dos tripulantes e nas maravilhosas fotografias de Hurley. Esses documentos são os fundamentos do livro da escritora Caroline Alexander. Também curadora da mostra sobre a expedição, ela consegue conduzir o leitor a participar, mesmo que de maneira virtual, da Expedição Imperial Transantártica.
‘‘Endurance: a lendária expedição de Shackleton à Antártida’’, de Caroline Alexander, Ed. Cia. das Letras, 248 páginas, R$ 52,00.Livros lançados pela Companhia das Letras resgatam a história das expedições polares no início do século
ReproduçãoO fotógrafo James Francis Hurley precisou de 20 lâmpadas de flash, uma atrás de cada bloco de gelo, para fotografar o barco à noiteReproduçãoErnest Shackelton, que comandou a expedição à Antártida, descreveu esta foto do barco preso ao gelo como a ‘‘imagem do fim’’

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