Drummond na TV cultura
Carlos Drummond de Andrade completaria hoje 96 anos e, para lembrar a data, a TV Cultura vai exibir às 20h30 o documentário inédito Carlos Drummond de Andrade - A Partilha da Poesia, uma co-produção da emissora brasileira com a Radiotelevisão Portuguesa (RTP). O documentário, de 55 minutos, reúne fotografias e imagens do poeta mineiro morto há dez anos, aos 84 anos, no Rio.
A Partilha da Poesia começa com crianças lendo trechos do poema No Meio do Caminho, publicado em 1928 na revista Antropofagia, e que virou símbolo da modernidade no Brasil. Sobre o poema, explicou Drummond certa vez: Ao escrevê-lo não tinha a intenção de agredir os literatos ou desencadear qualquer revolução estilística. Disse que queria apenas exprimir emoção e sentimentos. Foi o que fez ao longo da vida.
A leitura de poemas feita por crianças no Brasil e em Lisboa e por atores portugueses é cansativa, mas o documentário tem seus méritos. Das entrevistas, ressalta-se o depoimento do bibliófilo Plinio Doyle, um dos amigos do poeta. Foi na casa de Doyle que, durante longos anos, nas tardes de sábados, se realizavam os sabadoyles, as famosas reuniões de intelectuais lideradas por Drummond.
Drummond nasceu em Itabira, uma cidade com 90% de ferro nas ruas e 80% de ferro nas almas, no interior de Minas, num tempo em que a cidade tinha 4 mil habitantes. Mudou-se para o Rio na década de 30, mas nunca esqueceu a cidade natal à qual dedicou o poema Confidências do Itabirano.
No documentário, Drummond lê o poema. O ato de sofrer que tanto me diverte é a doce lembrança de Itabira, dizia o poeta. A cantora Maria Bethânia diz que o poeta é espetacular. Ele tem uma melancolia natural, mas uma alegria imensa de quem passou a infância no interior. Para a escritora Lygia Fagundes Telles, Drummond fazia poesia com lucidez.
Ele não tinha religião e explica no documentário como renegou a herança familiar da fé. Em Minas herdamos religião como herdamos terra, mas, já moço, abandonei a crença talvez por causa do convívio com padres e por influência de alguns escritores muito céticos, como Anatole France, dizia. Por que Deus permite que as mães vão-se embora?, perguntava o poeta que pouco depois da morte dela, escreveu: Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe permanece na eternidade.
Parte do documentário relembra o convívio do poeta com a mãe, Julieta Augusta Andrade, com quem se correspondeu entre 1925 e 1948. Com cartas semanais, Drummond abastecia Itabira com notícias sobre a publicação de seus livros, do casamento com Dolores e das relações com o então ministro Gustavo Capanema, seu ex-colega de colégio e de quem foi chefe de gabinete entre 1934 e 1945.ReproduçãoCarlos Drummond de Andrade lê um poema no documentário que vai ao ar hojeJúlio Gama
Agência Estado





