DRUMMOND
EM TRAÇOS

ReproduçãoCarlos
Drummond
de Andrade
além de
perfeito
nas letras
tem um lado
plástico
que foi
explorado
por
ilustradoresExposição no Rio traz
ilustrações publicadas
na imprensa para
acompanhar textos de Carlos
Drummond de Andrade
Norma Couri
Especial para a AE
Drummond é surpreendente. O maior poeta brasileiro deste século passou a vida nos emocionando. Depois da morte nos andou pregando peças, ora com poemas eróticos, ora com revelações de histórias pândegas, ora com um patético adeus na forma inglesa, Farewell, título que deu para as poesias encontradas numa pasta de cartolina azul-claro, que viraram livro. Agora o baú de Carlos Drummond de Andrade mostra que, além de único e universal, perfeito nas letras e nos sentimentos, Drummond é plástico.
ReproduçãoO poeta numa caricatura
de Emílio Moura
Essa é a intenção da bela exposição que está na Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro, criada por incentivo do próprio Drummond que perguntava nas crônicas: ‘‘Temos museu de arte, história, ciências naturais, carpologia, caça e pesca, anatomia, patologia, imprensa, folclore, teatro, imagem e som, moedas, armas, índio, República... de literatura não temos’’. É nesse museu de literatura, guardião de 2.225 documentos do poeta, que está a mostra ‘‘Drummond Ilustrado’’.
Ali, Drummond aparece encurvado e alongado, engordado e encurtado, tocando harpa, inspirando curvas sensuais, formando máscaras da Commedia dellArte ou árvores secas do nordeste brasileiro. São as ilustrações que acompanharam seis décadas de poemas e crônicas de Drummond publicadas em jornais e revistas que se perderam - como ‘‘O Malho’’, ‘‘Correio da Manh㒒 e ‘‘O Cruzeiro’’ - ou noutras que perduram - como o ‘‘Jornal do Brasil’’, no qual tinha uma coluna diária, e ‘‘O Estado de S. Paulo’’. Os ilustradores são dignos do autor.
Há traços art nouveau, decô, high tech. Há de tudo. Como escreveu Silviano Santiago no catálogo, há o lirismo cósmico de Tomás Santa Rosa, o realismo participante de Cândido Portinari e Di Cavalcanti, o expressionismo de Goeldi, Marcelo Grassman e Darel Valença, o fervor cristão de Emeric Marcier, o geometrismo minimalista de Milton Dacosta, a exuberância de Aldemir Martins. Há o traço pícaro de Ziraldo e a malícia de Carlos Leão. Também há Niemeyer, Carybé, Gian Calvi, Eugenio Hirsch, Aluísio Magalhães, Poty, traços conhecidos e anônimos.
De repente, um auto-retrato. Capas e caricaturas projetadas pelo próprio poeta e uma série especial para os poemas sobre Dom Quixote, que ilustraram os trabalhos de Portinari para a obra de Cervantes.
‘‘Drummond Ilustrado’’ é resultado de uma pesquisa de dois anos feita por Rachel Valença e Júlio Casta¤on Guimarães. Ocorre no ano em que Drummond faria 95 anos, no dia 31 de outubro. Um presente e tanto.
ReproduçãoDrummond em ilustração
de Elifas Andreato
Se o poema O Caso do Vestido (‘‘Nossa mãe, o que é aquele/ Vestido, naquele prego? Minhas filhas é o vestido/ De uma dona que passou...’’) está inspirando um filme e cada verso de Drummond inspirou tanta coisa, por que não um poeta construído só com imagens? Fica fácil pensar nelas. Ele escrevia science fiction: ‘‘O Marciano encontrou-me nas ruas/ e teve medo da minha impossibilidade humana’’.
Escrevia sensações: ‘‘Boca que eu nunca beijarei/ Boca de outro, que ri de mim/ no milímetro que nos separa/ cabem todos os abismos’’. Escrevia graças: ‘‘Dentaduras duplas! / inda não sou bem velho/ para merecer-vos...’’
Escrevia luxúrias: ‘‘Na curva perigosa dos cinquenta/ Derrapei neste amor, que dor! Que pétala/Sensível e secreta me atormenta/ E me provoca a síntese da flor.... E esse cavalo solto pela cama,/ A passear o peito de quem ama’’.
Também suas crônicas traziam brincadeiras muito visuais, um insetozinho pousado no papel sem ser esmagado, uma barata que não é pisada, um gaiato que penetra no quarto da rainha da Inglaterra sem ser visto. Provocava imagens e atiçava curiosidades aquela vida reclusa, discreta, magra, passada mais dentro do que fora de um austero escritório no apartamento da Rua Conselheiro Lafaiete, em Copacabana, fertilizando ou livrando- se de papéis que, segundo ele, copulavam à noite.
Uma vez uma jornalista ofereceu seu corpo em troca de uma entrevista e ele recusou dizendo: ‘‘Olha, não vale a pena...’’ Ele se escondia dos intrusos pelas paredes, pelos pseudônimos: Antônio Crispim, Barba Azul, Mickey, Constantino Serpa, Hugo de Figueiredo, José Luís, João Brandão.
Por mais que estudem, puxem e pesquisem, Drummond nos engana sempre e vem com mais, de outro jeito, melhor. O arquivo tem até mistérios, que só poderão ser desvendados no ano de 2056 -três cartas lacradas de Autran Dourado.
A mostra ‘‘Drummond Ilustrado’’ inspirou um catálogo, ‘‘Inventário do Arquivo Carlos Drummond de Andrade’’, um livro-mapa com 514 páginas para caçadores da arca do poeta. E Drummond, que nunca pisou na Europa, vai à França: a exposição é um gostinho da pesquisa de Rachel e Casta¤on, coordenada por Silviano Santiago. Depois de pronta, a edição crítica da obra poética de Drummond vai para a coleção Archives da Unesco, com sede em Paris, que inclui trabalhos semelhantes das obras de Mário de Andrade (‘‘Macunaíma’’), Clarice Lispector (‘‘A Paixão Segundo G.H.’’) e Lúcio Cardoso (‘‘Crônica da Casa Assassinada’’).
Por enquanto, Drummond é palavra e traço. O poeta exposto mais uma vez, como fez a vida inteira, à espera do feedback. ‘‘Tudo indica que Drummond tinha pouca fé na recomendação feita por Horácio na sua Arte Poética’’, escreveu Silviano Santiago. ‘‘Segundo ele, o poema depois de escrito devia passar nove solitários anos na gaveta do amadurecimento’’, disse.
Drummond preferia um outro conselho latino: ‘‘antes da versão definitiva, divulgue o manuscrito, submeta-o a várias e nobres orelhas’’. É preciso aproveitar essa onda na mostra da Casa de Ruy Barbosa. ‘‘... Nescit vox missa reverti’’: a palavra poética, uma vez liberada pelo autor, não volta mais.

mockup