Reprodução‘‘Vivo meu instante final/e é como se vivesse há muitos anos/antes e depois de hoje/uma contínua vida irrefreável/onde não houvesse pausas, síncopes, sonos/tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta/blocos cada vez maiores de ar./Sou vinte na máquina/que suavemente respira’’.
O autor destes versos, Carlos Drummond de Andrade, parou de respirar há exatamente dez anos, no dia 17 de agosto de 1987, aos 84 anos de idade, doze dias depois da morte da filha Maria Julieta. ‘‘Esta vida comovida é o diabo’’, dizia num de seus inúmeros versos repetidos até hoje. Mineiro de Itabira, onde nasceu no dia 31 de outubro de 1902, filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de dona Julieta Augusta Drummond, o poeta era descrito como um homem que só queria ficar quieto no seu canto, ‘‘observando a vida e o mundo’’.
Observava principalmente as miudezas da vida e fazia delas pequenas obras-primas, poemas sem fim. Quando completou 78 anos de idade, definiu-se assim numa entrevista: ‘‘Eu fui um homem qualquer’’. Gostava de definir de um modo peculiar tudo o que há no mundo. ‘‘Assim como os antigos moralistas escreviam máximas, deu-me vontade de escrever o que poderia chamar de mínimas, ou seja, alguma coisa que, ajustada às limitações do meu engenho, traduzisse um tipo de experiência vivida, que não alcança a sabedoria mas que, de qualquer modo, é resultado de viver’’ - escreveu na abertura de seu último livro, ‘‘O Avesso das Coisas’’, lançado pela Editora Record, com ‘‘mínimas’’ inéditas.
O primeiro livro foi ‘‘Alguma Poesia’’ (1930). A partir daí, dividiu-se entre a literatura e o funcionalismo público, até se aposentar desta última função, em 1962. Então, Drummond passou a ser poeta e cronista em tempo integral. Foram 65 anos de versos e crônicas. Antes, ainda aos 13 anos, começou a trabalhar como caixeiro. Três anos depois, foi obrigado a interromper os estudos em Belo Horizonte, por problemas de saúde, e três anos depois, já recuperado e voltando a estudar, fazia sua estréia ‘‘oficial’’ na literatura, como colaborador do jornal ‘‘Aurora Colegial’’.
Primeiro escândaloEm 1923, ainda indeciso quanto à carreira a seguir, entrou na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte. Um ano depois, conheceu os modernistas Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral. Também conheceu na época o poeta Manuel Bandeira. E quatro anos mais tarde publicou o que definia como seu primeiro escândalo literário: ‘‘No meio do caminho tinha uma pedra’’. Casou-se com Dolores Dutra de Morais, com quem teve um filho, Carlos Flávio de Andrade, que morreu antes de completar um ano. Sua filha Maria Julieta nasceu no dia 5 de agosto de 1928.
Drummond passou a colaborar com vários jornais e revistas e viveu um período particularmente fértil a partir da década de 50, quando escreveu, entre muitas outras obras, ‘‘Fazendeiro do Ar’’, ‘‘Lição de Coisas’’, ‘‘Antologia Poética’’ e ‘‘A Bolsa & a Vida’’. Fez traduções e ganhou muitos prêmios. Nos últimos anos de vida, raramente saía de casa. Tanto é que o simples fato de ter ido ao lançamento de um álbum de modinhas de seu amigo, o cantor Luís Cláudio, mineiro de Ponte Nova, foi notícia nos jornais. No disco anterior de Luiz Cláudio, ele escreveu os versos de ‘‘Viola de Bolso’’, na contra-capa:‘‘Violeiro mineiro/meu canto nem forte/nem belo/singelo/recorda ternuras passadas/futuras presenças amadas/amigos, imagens, paisagens./Meu canto/a um canto/da vida/vivida’’.
Drummond gostava da ‘‘vida vivida’’, mas também tinha uma certa preocupação com a morte. Quando completou 80 anos de idade, em 1982, surpreendeu as entrevistadoras Leda Nagle e Tereza Walcacer ao comentar, sereno, diante das câmeras do ‘‘Jornal Nacional’’ da Globo: ‘‘Eu gostaria de morrer fulminado por uma parada cardíaca’’. Drummond morreu de ‘‘parada respiratória’’, segundo o boletim médico. Para os amigos, morreu de tristeza.

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