"Druk" trata da crise da meia idade e da mão dupla da cultura de consumir álcool
"Druk" trata da crise da meia idade e da mão dupla da cultura de consumir álcool | Foto: Divulgação

Conheci o dinamarquês Thomas Vinterberg em 1998 em Cannes, quando ele e Lars von Trier, seu conterrâneo, apresentaram em competição no festival os dois primeiros longas do “Movimento Dogma-95/Voto de Castidade”, corrente de pensamento cinematográfico que visou estabelecer (e revisar) algumas regras para fazer cinema, baseadas em valores tradicionais – como história, interpretação e temas, desprezando o uso de efeitos especiais ou de recursos tecnológicos. A ideia foi celebrar o primeiro centenário do cinema (1895).

O perturbador filme de Vinterberg, “Festern” (Festa de Família), que propõe e consegue uma nova apreensão do real narrando uma crua reunião familiar recheada de segredos, mentiras e revelações burguesas, levou o Prêmio do Juri de Cannes (o mesmo atribuído a “Bacurau” em 2019) e mais uma dúzia de outros; já “Os Idiotas”, de von Trier, também radical mas frustrado, passou em branco.

Recheado de boas intenções, algumas resolvidas com brilho e confusas outras, o controvertido Dogma-95 não soube prevalecer com aquela radicalidade inicial.

Decorridas mais de duas décadas daquele evento bombástico de fim de século, Thomas Vinterberg chega ao noticiário de 2021 embalado pela repercussão de seu mais recente filme, “Druk – Mais uma Rodada” (lançado esta semana em várias plataformas de streaming e disponível no camelódromo de sua confiança), que vai disputar como franco favorito o Oscar de melhor filme internacional com seu concorrente imediato, o romeno “Collective”.

Com “Druk”, o diretor reassume parcialmente o Dogma 95 de mãos dadas com um desenvolvimento dramático sem a banalidade dos artifícios das raízes hollywoodianas, mas coladas à realidade e seus paradoxos. É uma abordagem que desta vez inclui a influência do álcool na vida das pessoas, tanto no que representa de positivo quanto no aspecto nocivo. Independentemente dos discursos castradores e reducionistas daquela faceta fetichista da assepsia, da pureza e da saúde dos setores profissionais burgueses do espectro social, mediático e cultural desses nossos dias.

A história está focada em quatro professores de uma escola secundária dinamarquesa. Eles são Martin (um inesquecível Mads Mikkelsen, de novo dirigido por Vinterberg depois de “A Caça”, de 2012, exibido em Londrina pela Cine Com-Tour/UEL), Peter (Lars Ranthe), Tommy (Thomas Bo Larsen) e Nicolaj (Magnus Millang). Um quarteto de amigos cansados da rotina pedagógica, da rigidez da direção da escola, da falta de real interesse dos alunos e, no momento, consumidos por crise existencial provocada pela meia idade.

Na verdade o projeto começou como a adaptação de peça escrita por Vinterberg há muitos anos, sobre os efeitos benéficos do consumo de álcool envolvendo a perda de inibições no trato comunitário. Mas há dois anos, a morte em acidente da filha do diretor, responsável pela transposição do texto para o cinema, levou Vinterberg a tornar seu roteiro mais denso e complicado. O resultado foi este filme-fábula hiper-realista sobre a crise de meia idade, sobre a mão dupla desta cultura de consumir álcool e a necessidade imperativa (hedonista?) de aproveitar a vida ao máximo, sem ser deprimido pela mediocridade do contexto imediato, a estupidez de familiares e colegas, a falta de criatividade vitalizante, os problemas do cotidiano mais vulgar e o desaparecimento intrínseco daquela vocação que nos fez começar a fazer algo por prazer ou simplesmente por paixão irreprimível.

A perspectiva de Vinterberg em “Druk” é sempre muito inteligente porque em essência combina um ingrediente cultural atemporal – a feroz cultura alcoólica em tempo integral dos países do Primeiro Mundo (bebe-se para comemorar um grande evento, para encerrar o dia, quando se está deprimido, quando não acontece absolutamente nada, quando se passeia, quando se encontra parentes, etc, etc) – e um ingrediente paradigmático que vem do nada para resolver um conjunto complexo de problemas e obstáculos.

Mais não se deve dizer sobre o filme, porque é desses muito raros que o prazer da descoberta se dá a cada cena. E há muitas mesmo, da melhor qualidade.

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