Nelson Sato
De Londrina
Livro reúne imagens imortalizadas de grandes craques do futebol brasileiro e textos assinados por nomes como Nelson Rodrigues, Chico Buarque e Luis Fernando Verissimo
O gol de Ronaldinho ‘‘gaúcho’’ contra a Venezuela, na abertura da Copa América, ressuscitou a mítica em torno do craque brasileiro. Sua já célebre jogada, aplicando um chapéu no adversário, poderia tranquilamente estar registrada em foto no livro Futebol-Arte que acaba de chegar às prateleiras pela editora Senac.
O livro homenageia o esporte número um do país com uma monumental antologia de imagens e textos, compilada a partir de variadas fontes pelos pesquisadores Jair de Souza, Lucia Rito e Sérgio Sá Leitão. Durante meses de garimpagem, eles vasculharam bibliotecas, museus, jornais, revistas, feiras populares, bancos de dados, acervos particulares de arte e instituições públicas nacionais e internacionais.
O material apresenta desde fotos históricas da época em que o futebol ainda era praticado apenas pelas elites até flagrantes de Copas de Mundo, da bola com que Pelé fez seu milésimo gol e obras de artistas plásticos que tematizaram o futebol em desenhos e pinturas.
Mais de 400 páginas foram necessárias para abrigar a documentação iconográfica e a coletânea de escritos de gente como Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, Luis Fernando Veríssimo, Stanislaw Ponte Preta, Ruy Castro, José Lins do Rego, Gilbeto Freyre, Gerald Thomas, Graciliano Ramos, Carlos Heitor Cony, Manuel Bandeira, Juca Kfouri, Monteiro Lobato, Armando Nogueira, João Cabral de Melo Neto e outros não menos ilustres.
O livro é dividido em dez capítulos temáticos, cada um enfocando uma dimensão desse fenômeno que leva multidões ao êxtase. Complementam o volume as seleções dos 22 melhores jogadores de todos os tempos, eleitas por seis especialistas de idades e atividades diversas: Armando Nogueira, Jô Soares, Juca Kfouri, Sergio Noronha, Telê Santana e Sérgio Sá Leitão.
Enquanto frases impagáveis se sucedem nas páginas, os autores contam paralelamente a história do esporte através de pequenos textos. Indo além dos manuais, eles observam que o futebol não nasceu na Inglaterra, como se pensa. ‘‘A história registra um sem número de antepassados’’, escrevem. ‘‘Antes do nascimento de Cristo, a bola já rolava nos pés de chineses, japoneses, egípcios e gregos’’.
Mais adiante anotam que os ingleses apenas disciplinaram a balbúrdia ao criar, na década de 60 do século passado, um livro de regras. Foi esse livro de regras que o pioneiro Charles Miller trouxe ao Brasil depois de passar uma temporada na terra da Rainha, difundindo o esporte. Mas por aqui, ele foi adotado inicialmente pelas elites.
Bater uma bola era chique, de bom-tom, garantia de bons empregos e bons casamentos. Foi só em 1923, quando alguns comerciantes portugueses cariocas resolveram sustentar um time formado por pé-rapados que o jogo perdeu a panca aristocrática e ganhou a ginga das ruas. O time, naquela ocasião, era o Vasco da Gama que sagrou-se campeão para o espanto de madames e barões.
Um dos textos sublinha: ‘‘O brasileiro, vindo da taba e da senzala, inventa então a pelada. Que antes de pensar, intui. Que, antes de sentir, pressente. Leônidas da Silva não parou para pensar no instante em que fez o primeiro gol de bicicleta. Nem Didi, quando inaugurou nos campos o chute de folha seca. Muito menos Pelé, ao dar ao corta-luz a graça de um gesto de balé. Ou Garrincha, quando corria o campo todo compondo com seus dribles espirais de vento e alegria’’.
Descobrir como o futebol se transformou nessa paixão nacional foi o desafio enfrentando pelos autores. O resultado chega agora ao público no momento em que um moleque dentuço (mais um) ensaia lances para figurar na seleta galeria de genialidades que inclui as jogadas de Pelé, o finge-que-vai-e-vai-mesmo de Garrincha, a bicicleta de Leônidas, a folha seca de Didi, as embaixadas de Paulo Cesar Caju, o chute de três dedos de Gerson, o drible elástico de Rivelino, o calcanhar de Sócrates e o arranque explosivo de Ronaldinho.

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