São Paulo, 17 (AE) - Em maio, as fotos de "Êxodos" vão ganhar vida. Sob orientação do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra - autor de mais de 40 peças teatrais, entre elas "Ay Carmela!", inspiradora do filme homônimo de Carlos Saura - cinco autores brasileiros estão criando textos teatrais a partir das fotos de Salgado: Mário Bortolotto, Márcio Marciano, Pedro Vicente, Christiane Jatahy e Rubens Rewald.
"Não se trata de ilustrar as fotos, mas de buscar cenas a partir da provocação que elas suscitam", diz Sinisterra. Ele propôs aos dramaturgos que criem cenas inspiradas em oito situações, que serão interpretadas por atores com os quais esses cinco dramaturgos já vêm trabalhando. A mais tradicional é fazer os retratados saltarem da foto e dialogarem. Mas propôs também a criação de curtos monólogos ditos por espectadores fictícios.
Num deles, o espectador comenta a qualidade artística do que observa, elogia formas, luminosidade e constrastes, contudo permanece insensível ao tema retratado. Numa outra, quem fala aparentemente foi tocado pelo conteúdo, mas suas observações são distanciadas. "É como se ele falasse sobre seres de outro planeta, expostos a uma tragédia que não tem implicação com sua vida", diz Sinisterra.
Há ainda cenas nas quais os personagens da foto interpelam um espectador fictício ou conversam entre si sobre os objetivos do fotógrafo. Outra proposta é um diálogo entre o fotógrafo e os retratados. "A idéia é lançar uma faísca para que provocar um olhar mais agudo no espectador", diz Sinisterra. E ressalta: "Salgado capta imagens desesperadas, truculentas, trágicas, porém capta, sobretudo, a dignidade de homens, mulheres e crianças em meio a essas coletividades rotas e destruídas".
Rebate ainda os que criticam como "estetização da miséria" o trabalho de artistas que exploram temáticas sociais. "O paradoxo da arte está essencialmente em converter o horror em beleza, sem anular o horror". Representante da dramaturgia engajada das décadas de 60 e 70, Sinisterra destaca a importância, na época, dessa arte engajada. "Mas também cometemos muitos equívocos", admite.
"Atualmente, o grande desafio é voltar a olhar para o mundo sem cometer os mesmos erros: esquematismo, vitimismo, imposição de ideologias, atingir somente os já convencidos". Aponta o bombardeio de imagens trágicas nos meios de comunicação de massa como um fator de anestesia da sensibilidade. "É um desafio muito rico nos dias de hoje voltar a tocar o espectador".
O dramaturgo mostra-se muito satisfeito com a criação dos brasileiros. "Venho trabalhando sistematicamente com oficinas para dramaturgo em várias partes do mundo e raras vezes vi jovens tão talentosos", afirma. "Em poucos dias de trabalho eles escreveram 25 textos de qualidade magnífica". Os elogios são recíprocos. "Eu, que sou muito folgado, com Sinisterra descobri que posso trabalhar sob pressão", diz Bortolotto. "Ele tem um método muito divertido de orientar as idéias da gente".
"Eu, por mim, tinha uma aula de dramaturgia dessas toda semana" emenda Vicente. "Além de alavancas de estímulos, Sinisterra propiciou uma troca de idéias muito interessante", destaca Marciano. "Vivemos na mesma cidade, temos preocupações semelhantes e raramente nos encontramos". Método - Sinisterra não concorda com a palavra método. "Prefiro chamar de ferramentas, técnicas desenvolvidas a partir de minhas próprias dificuldades e as percebidas nas oficinas de dramaturgia". Lamenta que a escrita teatral não tenha sofrido a transformação de outras artes como a pintura, a música ou a literatura.
"Minha grande obsessão hoje é fazer com que a dramaturgia sintonize-se com a complexidade do mundo contemporâneo sem ficar no experimentalismo formal". Sinisterra pretende repetir a experiência brasileira na exposição de Salgado em Madri, onde a idéia nasceu. O fotógrafo convidou Sinisterra para criar "algo de teatral" especialmente para acompanhar a exposição madrilenha.
Foi Sinisterra quem sugeriu à atriz e dramaturga Cristiane Jatahy, com quem tem uma parceria artística de longa data, que fizesse o mesmo no Brasil. E ela acabou envolvendo Sinisterra no projeto. Cristiane não só interpretou a protagonista de "Ay Carmela!", numa montagem dirigida por Freire-Filho, no Rio, como convidou Sinisterra para dirigir no Brasil outra de suas peças, "Perdida nos Apalaches", na qual ela atuava.
Com o diretor Aderbal Freire-Filho, ela participou ainda do espetáculo "Cruzada dos Meninos de Rua", que estreou no Festival de Teatro de Cádiz no ano passado, envolvendo oito dramaturgos da América Latina.

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