Curitiba - Não é novidade o interesse cada vez maior de crianças e adolescentes pelo teatro. A grande frequência dessa faixa etária nos palcos e na plateia é fato bastante percebido. A novidade é quando os jovens trocam de lugar com os adultos e deixam apenas de interpretar ou assistir e partem para a dramaturgia propriamente dita. É o caso do curitibano Igor Augustho Mattos Kijak, de apenas 14 anos, que conseguiu emplacar no Fringe, mostra paralela do Festival de Curitiba, um espetáculo escrito por ele, ''Peripécias - histórias para crianças nem um pouco inocentes''. Detalhe: a peça foi montada pela companhia que Igor está formando com outros três colegas também adolescentes, a Agridoce.
Contando a história de três crianças que dividem suas experiências familiares (alegres e tristes), suas expectativas para o futuro e anseios, o espetáculo teve casa lotada em todas as três apresentações que aconteceram no Café Teatro Toucher La Lune. Nos papeis principais estão Igor e mais dois colegas da Escola de Teatro Cena Hum, Fernando Turri e Adriana Fróes.
Se no primeiro dia da montagem foram 60 pessoas, nas outras datas foi preciso abrir espaço na plateia para mais 20 lugares. ''O festival é muito bacana porque a gente tem uma resposta imediata. Tem aquele público formado por amigos e familiares, pelo pessoal da classe artística e outro público formado por pessoas que buscam novidades do festival'', afirma Igor.
A peça contou com direção de Eri Buhrer e arrancou um elogio importante, do premiadíssimo diretor paranaense Edson Bueno. O dramaturgo postou um comentário bastante positivo em seu blog, logo após assistir à montagem. Na opinião dele, ''Peripécias'' mostrou um ''teatro de reflexão, teatro que quer dizer coisas (e diz!), tudo com muita inocência, humor e inteligência''. Bueno também considerou o texto ''uma joia poética''.
Modesto, Igor faz questão de dizer que os atores e a diretora também participaram na elaboração final do texto. Não é a primeira montagem do jovem e nem mesmo a estreia dele como dramaturgo. No ano passado, o estudante do primeiro ano do ensino médio escreveu e dirigiu ''Meu querido diário'', que também lotou o teatro do Cena Hum. Na história, a descoberta da vida amorosa por uma jovem, que acaba contraindo o vírus da Aids em sua primeira relação sexual.
Igor gosta de temas densos que transitam entre o drama e a comédia. Ele é um leitor de livros e escritor compulsivo. No seu computador, tem cerca de 30 peças concluídas, e muitos textos incompletos. O gosto pelo teatro vem desde muito pequeno e os fantoches são uma paixão. Aos quatro anos, o programa preferido do menino era assistir aos espetáculos de bonecos em um teatro instalado em um shopping de Curitiba. Ou ir à contação de histórias do Bosque do Alemão.

Escola teatral
Igor começou a ter aulas de interpretação aos seis anos. Com o passar do tempo, compreendeu que gostaria de ir além da função de ator. ''Eu tenho um prazer enorme em receber o texto de uma peça pela primeira vez'', conta. E nesse momento, o garoto sempre imaginava se um dia um ator ou atriz também receberia um texto dele para decorar e ensaiar.
Hoje, oito anos depois que pisou pela primeira vez em uma escola de teatro, Igor já atuou em 21 peças, sendo cinco profissionais. Fora os trabalhos de sonoplastia, produção, direção, assistência de direção, operação de luz e dramaturgia. Para este ano, o estudante tem três projetos de espetáculos na cabeça (e no computador). Quando questionado se ele se considera mais maduro do que os outros meninos da mesma idade, desconversa: ''Eu não sei se me considero mais maduro. Mas eu acho que realizo muita coisa para a minha idade''.
A mãe de Igor, a advogada Ivanes da Glória Mattos concorda que o filho é mais maduro que outros garotos dessa idade. Ela lembra que, desde criança, ele adorava montar peças na sala de casa, espetáculos que eram assistidos pela família e amigos. As aulas de teatro surgiram como uma alternativa de atividade extra-escola e desde que o matriculou as boas surpresas não param de acontecer. Primeiro os textos teatrais de boa qualidade, depois a constatação das habilidades para trabalhar na parte técnica dos espetáculos e, por fim, a informação de que o filho formava com outros amigos uma companhia própria de teatro. ''Ele sempre foi muito independente'', resume, lembrando que acompanha o garoto em várias dessas atividades, até mesmo para conhecer o meio artístico, que ainda é desconhecido para a família. ''Eu tenho bastante orgulho do meu filho'', afirma.

Último dia
O espetáculo de Igor Augustho foi um dos 360 apresentados no Fringe, a mostra paralela do Festival de Curitiba, que chega hoje ao seu final. As peças apresentadas em paralelo à mostra oficial ajudam a dar visibilidade para atores, dramaturgos e diretores brasileiros. ''O Fringe é mesmo uma vitrine'', concorda a coordenadora executiva do Festival, Ana Hupfer.
Para se inscrever no Fringe, os grupos precisam ter uma quantidade mínima de artistas com registro profissional. Participaram da mostra grupos de 20 Estados do Brasil, sendo que aqueles com maior número de inscritos foram o Paraná (180) e São Paulo (73). Para se ter uma ideia da visibilidade que um evento como esse proporciona, basta verificar que o Festival atraiu este ano a presença de 70 jornalistas de fora de Curitiba, 120 programadores de festivais brasileiros e estrangeiros, além de 12 produtores de elenco da Rede Globo.

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