Dramaturgo alemão vem ao Brasil para a estréia
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quarta-feira, 19 de maio de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 20 (AE) - Ao lado do diretor Rubens Rusche, o dramaturgo alemão Harald Mueller caminha pelo corredor do Centro Cultural São Paulo e pára diante do cartaz que anuncia a temporada da peça de sua autoria, Barca dos Mortos. "Fantásticas!", exclama em inglês ao ver as fotos do espetáculo. "O público vai sentir-se atraído por elas." Imediatamente após, finge ler o cartaz da peça (ele não entende português) e faz uma cena: "Argh, texto alemão, não, não quero ver", afasta-se num salto.
Mueller é autor de 27 peças teatrais, 15 radiofônicas e 4 roteiros de cinema e veio ao Brasil a convite de Rusche para assistir à primeira montagem de Barca dos Mortos na América do Sul - a peça está traduzida em 15 idiomas e já foi encenada 28 vezes em diversos países da Europa e nos Estados Unidos. Bem-humorado, chegou ao Brasil na quarta-feira, dia em que completava 65 anos e seguiu pouco depois para o teatro.
Gostou do cenário/instalação de J.C. Serroni e afirmou nunca ter visto algo semelhante em outras montagens da peça. "Lembra o cenário criado para outra peça minha, O Grande Lobo, montada também num porão." O trabalho tinha como tema a luta entre gangues de jovens que falavam numa linguagem reduzida.
A forma como Mueller trata a linguagem dos personagens chama a atenção também no texto de Barca dos Mortos. "Quando um ser humano não consegue mais articular o pensamento, expressar-se, sua fantasia fica tolhida e a cultura empobrecida." Mueller revela que o uso da linguagem é uma de suas obsessões, um tema que perpassa toda a sua obra. "Agora mesmo investigo certas linguagens estanques, tão herméticas que só são faladas por grupos reduzidos, como os especializados em informática", exemplifica. "Isso vai estar na peça que estou escrevendo, cujo tema é a bolsa de valores", adianta.
Casado, pai de três filhas, Mueller foi estivador, ajudante de hotel e office-boy. Cursou uma escola de teatro e trabalhou como ator antes de escrever sua primeira novela radiofônica, em 1962. Há 30 anos vive unicamente de sua arte e se define como um autor intuitivo. "As pessoas descobrem muitas referências mitológicas em meus textos - desde as bíblicas até a saga dos nibelungos -, mas quando os escrevo não penso em nada disso."
Mueller escreveu Barca dos Mortos para um concurso de dramaturgia cujo tema era a ecologia. Preferiu mostrar o planeta destruído após uma hecatombe ecológica para valorizar a importância da preservação. Mas seu alerta vai além da contaminação química do ar, da terra e da água. O texto propicia uma reflexão sobre a importância da fantasia. "Tenho dúvidas quanto à possibilidade de a arte mudar o mundo, mas sem arte ele ficaria muito pobre."


