Volta e meia, o merchandising social protagoniza tramas. Apesar do eventual didatismo nas histórias com campanhas, muitas vezes elas efetivamente surtem efeito ao longo dos anos. Não é à toa que a nova novela de Glória Perez, ''Salve Jorge'' vai falar sobre o tráfico humano. De 2005 a 2011, foram relatadas ao Ministério da Justiça 475 vítimas desse crime. Na maioria, mulheres de baixa renda e na faixa etária de 10 a 29 anos. Exatamente o grupo em que se encaixaria Morena, a protagonista da trama, encarnada por Nanda Costa.
''No início, foi complicado dar um ar de dramaturgia a um assunto tão sério. Mas a minha intenção é mostrar ao público o que acontece com uma pessoa que vai em busca de um sonho, de fazer uma vida e ganhar dinheiro fora do país e acaba escravizada, tendo de se prostituir'', argumenta a autora.
Nem o público infantil escapa das campanhas. No remake de ''Carrossel'', adaptado por Íris Abravanel, o racismo e as brincadeiras de mau gosto sofridos pelo personagem Cirilo, de Jean Paulo Campos, têm colocado o bullying em pauta. Uma pesquisa realizada pela ONG Plan Brasil mostra que 70% dos estudantes já presenciaram esse tipo de violência em suas escolas. Mas Íris acredita que através do trabalho que vem realizando na novela pode ajudar a mudar esse quadro alarmante. ''Cada situação de bullying mostrada é uma oportunidade de gerar uma conversa entre pais e filhos. São situações cotidianas. A escola é um laboratório para a vida'', defende Íris.
Outro que costuma inserir merchandising social em seus trabalhos é Manoel Carlos. Em ''Laços de Família'', por exemplo, o autor, além de fazer um trabalho socioeducacional sobre a leucemia, também incentivou a doação de medula óssea. Na novela, Camila, interpretada por Carolina Dieckmann, descobre que tem a doença, mas não consegue uma medula compatível. Para salvar a filha, Helena, de Vera Fischer, resolve engravidar acreditando que o bebê pode ser doador de Camila.
A divulgação da leucemia foi tão eficaz que gerou resultados imediatos no registro nacional de doadores de medula óssea. ''As doações quase dobraram. Nós tínhamos 12.086 pessoas cadastradas como doadoras e, com a novela, esse número subiu para 20.494 em apenas três meses'', compara Luiz Fernando Bouzas, diretor do Centro de Transplantes de Medula Óssea do Inca.
''Páginas da Vida'', também de Manoel Carlos, foi outro sucesso baseado em merchandising social. A trama contava a história de Clarinha, vivida por Joana Mocarzel, uma menina com Síndrome de Down que foi abandonada pela própria avó ao nascer.
A novela foi escrita após uma pesquisa realizada pela Globo mostrando que crianças portadoras dessa síndrome, muitas vezes, eram escondidas em casa quando a família recebia visitas. ''O que me interessou foi colocar na mesa o preconceito que existe em torno disso. A inclusão ou exclusão das crianças portadoras de Down'', enfatiza Maneco.
E a novela mudou a visão de muita gente sobre a deficiência. ''O tema foi esclarecido e hoje as pessoas não têm mais vergonha de seus filhos com Síndrome de Down'', garante Maria de Lourdes Marques, presidente da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down.
O tema foi tão polêmico que voltou a marcar presença na tevê em 2011, na novela da Record ''Vidas em Jogo'', escrita por Cristianne Fridman.

mockup