Drama universal sobre a intolerância
Um dos lançamentos importantes deste feriadão carnavalesco pródigo em estreias para todos os apetites, Lemon Tree (sem título em português, mas vale o limoeiro literal) chega hoje ao circuito local precedido de um prêmio muito significativo, entre outros que ganhou durante o ano passado: foi aclamado o melhor filme do Festival de Berlim 2008 segundo o júri popular formado por centenas de espectadores pagantes que também têm acesso aos filmes em competição naquela mostra Cannes e Veneza não têm este termômetro.
Neste caso particular, mais que o reconhecimento de um júri técnico de experts, valeu a imediata empatia estabelecida entre a plateia e esta história que, sem empunhar armas ou se valer da violência gráfica, envolve e convida o espectador a refletir não só sobre uma eternamente irresolvida situação conflituosa (o real), mas sobre nós mesmos, seres humanos também portadores de irresoluções por conta de barreiras que erguemos no convívio cotidiano (a metáfora). Parece piegas? Então veja como o diretor Eran Riklis põe na mesa esta questão em Lemon Tree.
Salma Zidane (Hiam Abbass), 45, viúva, bela serena em seus traços outonais, mora em pequena comunidade palestina na Cisjordânia. Ela é dona de uma plantação de limões, seu único patrimônio, herança familiar. Mas o ministro da Defesa de Israel em pessoa (Doron Tavory) aparece como seu novo vizinho. Logo a segurança israelense decreta que os limoeiros de Salma são um risco para o ministro. E por isso devem ser derrubados. Com todos os familiares morando longe, a determinada Salma decide lutar por suas árvores por meios legais, desafiando um batalhão de advogados militares apoiados pelo governo.
Cinema político e drama universal sobre a intolerância, Lemon Tree se pauta pela correção e sobriedade, não permitindo em nenhum momento que maniqueísmos e demagogias discursivas tomem conta da narrativa. O filme dirige seu olhar crítico a ambas as partes, tanto ao medo-paranóia que ergue trincheiras e outras situações ridículas do lado de Israel como aos ancestrais e imobilistas costumes dos palestinos. Como pano de fundo, no entanto, pesa a tragédia comum dos dois povos.
Difícil não cair de admiração e simpatia pela força desta mulher valente, interpretada com segurança pela muito requisitada atriz israelense Hiam Abbass, que já esteve na tela do Com-Tour em Free Zone, Paradise Now, A Noiva Síria e que já garantiu presença em Cannes-09 no elenco de The Limit of Control, recém-finalizado drama de Jim Jarmusch. E como é reconfortante usufruir de um filme pequeno na aparência mas imenso em significado, um filme que, sem sangue e sem barulho, a partir de fatos miúdos do dia-a-dia, encontra inteligentes pontos de reflexão sobre um conflito que teima em privilegiar a insensatez. (C.E.L.J.)





