DRAMA
DO VERBO
ELÉTRICO
‘‘Eletroencefalodrama’’, livro de poesia de Joca Reiners Terrons trafega entre a concisão e o despojamento
Marcos Losnak
Especial para a Folha2

Reprodução
Alguns pesquisadores afirmam que a poesia encontra sua origem primordial em antigas lendas. Uma delas diz que certo dia um certo deus poderoso, em um certo dia entediado, resolveu brincar com algumas palavras. Extasiado pela experiência, passou o fogo, ou seja, a brincadeira, para os homens. Alguns homens levaram a brincadeira a sério e o terreno ficou fértil em controvérsias. Algumas pessoas defendiam que a brincadeira era ‘‘assim’’, outras afirmavam que era ‘‘assado’’. Logo apareceu a vertente do ‘‘deixa disso’’ para evitar derramamento de sangue.
Alguns pesquisadores, outros, afirmam que todo o conflito teve origem num leve equívoco de comunicação. Na realidade o poderoso deus teria ensinado a brincadeira para os humanos e conferido ao jogo o nome plural ‘‘poesias’’ e não simplesmente o singular ‘‘poesia’’. Neste tempo o ouvido humano ainda estava em formação e, consequentemente, com algum grau de surdez.

Serigrafia com poema de Joca Reiners Terron (no detalhe): versos que passam pela lapidação linguística e o humor otimistaResumindo, a lenda parece dizer que a poesia seria, em sua origem, um gênero estético plural. Uma arte que comporia múltiplas e infinitas possibilidades. As ‘‘castas’’ poéticas atuais seriam decorrência de uma eventual deficiência auditiva dos interlocutores primordiais, ou seja, o deus brincalhão e os homens de poucos ouvidos.
Nas últimas décadas a poesia brasileira vem proclamando diversidades em cada esquina, paralelamente a mídia vem propagando unidades em qualquer oportunidade. No meio deste campo de batalha algumas editoras, de olhos voltados para a poesia, estão colocando seus versos para fora. Um bom exemplo está na recém-criada editora paulista Edições Ciência do Acidente que está colocando seu primeiro título no mercado, ‘‘Eletroencefalodrama’’ do poeta e designer gráfico Joca Reiners Terron.
A poesia de Terron trafega entre duas margens definidas: concisão e despojamento. Versos que trafegam entre a lapidação linguística e o humor otimista, aquele que contorna as dificuldades com elegância. Dramas colocando o dedos na tomada e sorrindo do próprio choque.
Em ‘‘Eletroencefalodrama’’ Terron trabalha com a metalinguagem para abordar a própria poesia e seu veículo, o papel. O livro tem início com um poema chamado ‘‘Miss P. Essa Top Fodel Inatingível’’. A ‘‘Miss P.’’ em questão é a senhora poesia: O contato com a senhora / não me é prazeiroso: / me cato em pranto / num ponto em que, puro osso, / não posso ser o santo / que quero e, sério / livre, aéreo / um colosso sem crivo / Quando morrer quero ser um livro. O último texto do volume, chamado ‘‘Wayne’’, aponta para a derradeira conclusão : Acabo com você com uma palavra. A palavra? / Fim.
‘‘Eletroencefalodrama’’ traz vários trabalhos gráficos. Um deles, que pontua as seções do livro, trata-se de colagens utilizando desenhos realizados por Hi-A Zo no início do século sob orientação de Raymond Roussel - personagem cultuado pelo surrealista André Breton e pelo dadaísta Tristan Tzara. Outro, um poema gráfico propriamente dito, trabalha com uma técnica que tomou impulso nos anos 70, a ampliação de imagens, seja por meios fotomecânicos ou eletrônicos, com o objetivo de distorcê-las para criar um segunda ou terceira imagem.
Em ‘‘Constellatio’’, Terron utiliza a xerografia para ampliar centenas de vezes uma simples folha de abacateiro. Com a distorção da ampliação novas imagens aparecem ao acaso. A evidenciada, no caso, é a figura de uma velha de lenço na cabeça, vestido longo e sandálias, curvada pelo peso dos anos de caminhada. Com novas distorções de novas ampliações, uma nova figura tem origem, um ‘‘quase E.T.’’ nascendo de um organismo celular. A imagem, com novos graus de ampliação caminha para o vazio, o branco da página.
Joca Reiners Terron foi o criador, em 1993, da revista ‘‘Cão - O Magazine dos Signos’’ que reunia vertentes da poesia e do designer gráfico com uma peculiar ousadia e originalidade. Trafegando entre a estética poesia concreta e a linguagem de quadrinhos a revista teve poucos números, mas mesmo assim, entrou pela porta da frente da história das publicações literárias alternativas.
‘‘Eletroencefalodrama’’ é o primeiro título da coleção ‘‘Livros do Cão’’ da Edições Ciência do Acidentes, coleção especialmente destinada à publicação de poesia. O segundo título, previsto para o segundo semestre, será de autoria do escritor e jornalista paulista radicado em Curitiba Valêncio Xavier.
• Eletroencefalodrama, de Joca Reiners Terron, Edições Ciência do Acidente, 96 páginas, R$ 15,00/Livraria Rosa do Povo (fone: (043/321-5691)

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