Dragão dublado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de janeiro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
ReproduçãoCena de Coração de Dragão: aventura medieval com efeitos especiais de causar assombro
A estréia nacional de Coração de Dragão(veja programação de cinema na pagina 3) deve despertar velhas animosidades contra a dublagem nas salas de exibição do Brasil. O pretexto conhecido do distribuidor, tão antigo quanto indefensável, é abrir espaço para uma platéia infantil incapaz de ler com todas as letras ou acompanhar a velocidade das legendas. Pode até funcionar com filmes de animação, ou pode ser opção alternativa para algumas poucas cópias apenas, e ainda assim quando não se coloca em questão uma flagrante qualidade artística. Caso do recente e inócuo Herói de Brinquedo, onde mesmo assim a voz dublada de Schwarzenegger teimava em ser bem pior que a do ator, com seu gutural sotaque austro-ianque. Mas o procedimento não deveria afetar a grande maioria do circuito lançador, como acontece no caso de Dragonheart.
Surpreendentemente bem sucedido desde que estreiou no último verão americano, o filme de Rob Cohen, responsável pelas peripécias de Stallone neste Daylight agora curtindo ressaca pós-natalina, é uma movimentada aventura medieval ambientada na Inglaterra por volta do século 10. Época de dragões, feiticeiros, cavaleiros e reis tiranos. E é justamente contra um desses perversos ditadores que um desiludido matador de dragões decide lutar. A seu lado, Draco, o Dragão, aliás o último dos dragões vivos. Mas não um dragão qualquer: além de ser o último de sua espécie, é um companheirão. Apesar de todo o tamanho e da aparência assustadora, o bicho está muito mais para um amigável bon vivant do que para um mau-humorado velociraptor. Muitas peripécias recheadas de momentos hilariantes se sucedem antes do clímax com a batalha da floresta, no melhor estilo dos épicos de Robin Hood.
Connery-dragãoOrçado em 60 milhões de dólares, boa parte desta quantia foi embolsada pelos novos ricos de Hollywood, aquele pessoal conhecido como a turma dos efeitos. São várias as empresas operando no próspero e rentável ramo, mas uma - a Industrial Light and Magic - vem se especializando em tarefas consideradas impossíveis. Trabalhando em cima de gadgets que podem custar até 350 mil dólares a unidade, os magos chefiados por George Lucas já não conhecem limites para a criatividade. E se depois de Jurassic Park alguém imaginou que a fonte secaria por um tempo mais longo, o que se obteve em Coração de Dragão é mais um motivo de assombro.
Quando ainda em pré-produção, o filme enfrentou diversos problemas. A começar pelas locações nos arredores de Bratislava, capital da Eslováquia, na Europa Central. Ninguém da equipe curtiu a permanência no país, a começar pelo ator Dennis Quaid, que interpreta o inquieto cavaleiro medieval que busca paz de espírito mas que encontra um boa razão para lutar. Quaid, de resto, não era a escolha inicial para o personagem: Mel Gibson, Robin Williams e Harrison Ford foram consultados mas recusaram. Também a direção andou de mão em mão (Richard Donner e Jon Avnet), ficando afinal com Rob Cohen. Outro fator que quase cancela o início das filmagens foi um teste que o autor da história original apresentou aos produtores. O dragão visto nesta quase desastrosa preview era uma criatura no veterano estilo Muppet, o que contrariou a cúpula da Universal. Ainda bem, porque o roteirista Charles Edward Ponge teve uma idéia magnífica: emprestar ao dragão as feições de um grande ator. Definido o tipo, foi fácil chegar a Sean Connery, que trabalha sem estar de fato lá. A não ser através da voz, ora com as necessárias e trovejantes entonações, ora com o proverbial cinismo jamesbondiano. A Industrial Light and Magic foi fundo ao computador, e de lá trouxe uma espécie de milagre antropomórfico. De olho na tela, não há dúvida: o dragão tem a cara, o coração e o carisma de Connery, levados até o espectador em grande parte através da voz inconfundível. Não é justo, portanto, privar o público do privilégio de ver e aplaudir a autêntica e brilhante performance de um ator incomparável. E que não tem absolutamente nada a ver com Miguel Falabella.


