ReproduçãoCena de ‘‘Coração de Dragão’’: aventura medieval com efeitos especiais de causar assombro

A estréia nacional de ‘‘Coração de Dragão’’(veja programação de cinema na pagina 3) deve despertar velhas animosidades contra a dublagem nas salas de exibição do Brasil. O pretexto conhecido do distribuidor, tão antigo quanto indefensável, é abrir espaço para uma platéia infantil incapaz de ler com todas as letras ou acompanhar a velocidade das legendas. Pode até funcionar com filmes de animação, ou pode ser opção alternativa para algumas poucas cópias apenas, e ainda assim quando não se coloca em questão uma flagrante qualidade artística. Caso do recente e inócuo ‘‘Herói de Brinquedo’’, onde mesmo assim a voz dublada de Schwarzenegger teimava em ser bem pior que a do ator, com seu gutural sotaque austro-ianque. Mas o procedimento não deveria afetar a grande maioria do circuito lançador, como acontece no caso de ‘‘Dragonheart’’.
Surpreendentemente bem sucedido desde que estreiou no último verão americano, o filme de Rob Cohen, responsável pelas peripécias de Stallone neste ‘‘Daylight’’ agora curtindo ressaca pós-natalina, é uma movimentada aventura medieval ambientada na Inglaterra por volta do século 10. Época de dragões, feiticeiros, cavaleiros e reis tiranos. E é justamente contra um desses perversos ditadores que um desiludido matador de dragões decide lutar. A seu lado, Draco, o Dragão, aliás o último dos dragões vivos. Mas não um dragão qualquer: além de ser o último de sua espécie, é um companheirão. Apesar de todo o tamanho e da aparência assustadora, o bicho está muito mais para um amigável bon vivant do que para um mau-humorado velociraptor. Muitas peripécias recheadas de momentos hilariantes se sucedem antes do clímax com a batalha da floresta, no melhor estilo dos épicos de Robin Hood.
Connery-dragãoOrçado em 60 milhões de dólares, boa parte desta quantia foi embolsada pelos novos ricos de Hollywood, aquele pessoal conhecido como ‘‘a turma dos efeitos’’. São várias as empresas operando no próspero e rentável ramo, mas uma - a Industrial Light and Magic - vem se especializando em tarefas consideradas impossíveis. Trabalhando em cima de ‘‘gadgets’’ que podem custar até 350 mil dólares a unidade, os magos chefiados por George Lucas já não conhecem limites para a criatividade. E se depois de ‘‘Jurassic Park’’ alguém imaginou que a fonte secaria por um tempo mais longo, o que se obteve em ‘‘Coração de Dragão’’ é mais um motivo de assombro.
Quando ainda em pré-produção, o filme enfrentou diversos problemas. A começar pelas locações nos arredores de Bratislava, capital da Eslováquia, na Europa Central. Ninguém da equipe curtiu a permanência no país, a começar pelo ator Dennis Quaid, que interpreta o inquieto cavaleiro medieval que busca paz de espírito mas que encontra um boa razão para lutar. Quaid, de resto, não era a escolha inicial para o personagem: Mel Gibson, Robin Williams e Harrison Ford foram consultados mas recusaram. Também a direção andou de mão em mão (Richard Donner e Jon Avnet), ficando afinal com Rob Cohen. Outro fator que quase cancela o início das filmagens foi um teste que o autor da história original apresentou aos produtores. O dragão visto nesta quase desastrosa ‘‘preview’’ era uma criatura no veterano estilo Muppet, o que contrariou a cúpula da Universal. Ainda bem, porque o roteirista Charles Edward Ponge teve uma idéia magnífica: emprestar ao dragão as feições de um grande ator. Definido o tipo, foi fácil chegar a Sean Connery, que trabalha sem estar de fato lá. A não ser através da voz, ora com as necessárias e trovejantes entonações, ora com o proverbial cinismo jamesbondiano. A Industrial Light and Magic foi fundo ao computador, e de lá trouxe uma espécie de milagre antropomórfico. De olho na tela, não há dúvida: o dragão tem a cara, o coração e o carisma de Connery, levados até o espectador em grande parte através da voz inconfundível. Não é justo, portanto, privar o público do privilégio de ver e aplaudir a autêntica e brilhante performance de um ator incomparável. E que não tem absolutamente nada a ver com Miguel Falabella.

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