Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass?
A piada circula há anos entre os músicos, mas continua valendo. Não só porque a repetição é o princípio fundamental dessa música, mas porque agora a repetição tem de ser vista na segunda potência: a repetição da repetição. Glass teve uma idéia há 30 anos; a idéia agora o tem e, evidentemente, o terá para sempre.
De tal modo que tanto faz, afinal, se ele está escrevendo para quarteto de cordas, orquestra sinfônica, ópera ou trilha de filme. ''Philip Glass'' virou marca registrada, e ele mesmo faz pouco mais do que imitar Philip Glass a cada nova peça.
O que, em si, não é nem bom nem ruim. Só se pode ser simpático a um compositor capaz de tirar a música contemporânea do nicho exclusivíssimo da vanguarda e conquistar platéias numerosas mundo afora.
A proximidade com o rock, o emprego franco de acordes tonais, a linguagem ensolarada: tudo isso já foi uma alegria. E alguma coisa da força original permanece, até quando já se transformou em automatismo ou trivialidade.
As contingências são essas, mas a situação, de qualquer modo, era charmosa: a projeção, anteontem, na Sala São Paulo, de uma cópia restaurada do filme ''Drácula'', de 1931, dirigido por Todd Browning, com Bela Lugosi no papel principal e o Philip Glass Ensemble interpretando ao vivo a trilha especialmente composta pelo compositor.
Há dois anos, o Kronos Quartet gravou a trilha em CD. Dessa feita, a música veio num arranjo para teclados e sopros (clarinetes, flauta, sax tenor), a formação ''clássica'' de Glass.
Perdeu-se, com isso, certa carga de alusões à música romântica do Leste Europeu - Dvorak e Smetana, entre outros, e a partitura se distanciou mais dos clichês do filme, o que só pode ser bom.
Mas não o bastante para salvar a noite: 1) desequilíbrios da amplificação (música cobrindo os diálogos) eram quase irrelevantes, quando se pensa que a cópia do filme está sendo mostrada sem legendas, o que se torna ainda mais grave com o som cheio de chiado das vozes gravadas há 70 anos: quantas pessoas terão conseguido entender alguma coisa?;
2) a trilha tem música demais (quase o tempo todo da projeção) e de menos (não passa muito de uma espécie de papel de parede sonoro); 3) o filme só sobrevive pela sedução de época: para ser mais preciso, pela força kitsch do rosto de Bela Lugosi e pela fraqueza kitsch da mocinha Helen Chandler.
Fetichismo tem sempre seu valor - quanto mais o fetiche do vampiro. Olhos de fogo, gargantas expostas, mantos negros, tumbas: sirvam-se, cavalheiros. Mas bom humor faria bem na receita; e só o mais ferrenho fetichista da arqueologia pop poderia se deliciar com um filme tão primitivo, tão tedioso.
A música não compensa? A julgar pelos aplausos da platéia em pé, compensa. Mas é de supor que tenham sido mais pela ''Obra Completa'' de Philip Glass do que por essa partitura sem grande brilho. Que pena. Era para ser divertido. E foi tão bobo.

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