'DRÁCULA' DE PHILIP GLASS NÃO AGRADA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de setembro de 2001
Arthur Nestrovski<BR>Agência Folha 
Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass? Você já escutou Philip Glass?
A piada circula há anos entre os músicos, mas continua valendo. Não só porque a repetição é o princípio fundamental dessa música, mas porque agora a repetição tem de ser vista na segunda potência: a repetição da repetição. Glass teve uma idéia há 30 anos; a idéia agora o tem e, evidentemente, o terá para sempre.
De tal modo que tanto faz, afinal, se ele está escrevendo para quarteto de cordas, orquestra sinfônica, ópera ou trilha de filme. ''Philip Glass'' virou marca registrada, e ele mesmo faz pouco mais do que imitar Philip Glass a cada nova peça.
O que, em si, não é nem bom nem ruim. Só se pode ser simpático a um compositor capaz de tirar a música contemporânea do nicho exclusivíssimo da vanguarda e conquistar platéias numerosas mundo afora.
A proximidade com o rock, o emprego franco de acordes tonais, a linguagem ensolarada: tudo isso já foi uma alegria. E alguma coisa da força original permanece, até quando já se transformou em automatismo ou trivialidade.
As contingências são essas, mas a situação, de qualquer modo, era charmosa: a projeção, anteontem, na Sala São Paulo, de uma cópia restaurada do filme ''Drácula'', de 1931, dirigido por Todd Browning, com Bela Lugosi no papel principal e o Philip Glass Ensemble interpretando ao vivo a trilha especialmente composta pelo compositor.
Há dois anos, o Kronos Quartet gravou a trilha em CD. Dessa feita, a música veio num arranjo para teclados e sopros (clarinetes, flauta, sax tenor), a formação ''clássica'' de Glass.
Perdeu-se, com isso, certa carga de alusões à música romântica do Leste Europeu - Dvorak e Smetana, entre outros, e a partitura se distanciou mais dos clichês do filme, o que só pode ser bom.
Mas não o bastante para salvar a noite: 1) desequilíbrios da amplificação (música cobrindo os diálogos) eram quase irrelevantes, quando se pensa que a cópia do filme está sendo mostrada sem legendas, o que se torna ainda mais grave com o som cheio de chiado das vozes gravadas há 70 anos: quantas pessoas terão conseguido entender alguma coisa?;
2) a trilha tem música demais (quase o tempo todo da projeção) e de menos (não passa muito de uma espécie de papel de parede sonoro); 3) o filme só sobrevive pela sedução de época: para ser mais preciso, pela força kitsch do rosto de Bela Lugosi e pela fraqueza kitsch da mocinha Helen Chandler.
Fetichismo tem sempre seu valor - quanto mais o fetiche do vampiro. Olhos de fogo, gargantas expostas, mantos negros, tumbas: sirvam-se, cavalheiros. Mas bom humor faria bem na receita; e só o mais ferrenho fetichista da arqueologia pop poderia se deliciar com um filme tão primitivo, tão tedioso.
A música não compensa? A julgar pelos aplausos da platéia em pé, compensa. Mas é de supor que tenham sido mais pela ''Obra Completa'' de Philip Glass do que por essa partitura sem grande brilho. Que pena. Era para ser divertido. E foi tão bobo.


