Doutor sanfoneiro
Falando sobre sua profissão, Sivuca é um sábio, um mestre. Não é por menos que ele acaba de ganhar o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba. Isso o enche de vontade de sair por aí ensinando jovens músicos e de (se algum editor se interessar) publicar seu método para formar novas gerações de sanfoneiros nas universidades.
Quando sobe no palco, com o seu acordeão, ora solene, tocando Bach, Asa Branca, Luar do Sertão, ou tremendo o fole em ‘‘Feira da Mangaio’’, (dele e de Glorinha Gadelha), Sivuca é um gênio, virtuose, o mestre do Forró Sinfônico. Ele já escreveu cinco partituras de sua sinfonia para sanfona e orquestra sobre as quais já conversou com o maestro Roberto Gnatali, do Conservatório de MPB de Curitiba sobre uma possível estréia. Sivuca acaba de fazer um arranjo para ‘‘Feira de Mangaio’’. Ele conta que é um arranjo estilo Mercosul, cheio de elementos de latinidad, mas que preserva o gostinho do mar da Paraíba. ‘‘Itabaiana, onde nasci, é linda.
Nasci num 26 de maio, numa segunda-feira, às dez horas do dia e não chovia. Como é que você sabe?, me perguntam. Nasci no Nordeste. Ele diz que se Pedro Álvares Cabral passar de novo em Itabaiana vai encontrá-la do mesmo jeito.
Tocando e contando histórias, ‘‘cheio de animação’’, Sivuca se empolga e resolve também cantar. ‘‘Depois de escutar Tom e Vinicius cantando acho que também posso’’. Em ‘‘No Tempo dos Quintais’’ que ele fez com Paulinho Tapajós, seu rosto se ilumina relembrando os lampiões de gás, falando de pardais, pomares e de margaridas. Parece o do menino paraibano que aos 9 anos pegou na sanfona pela primeira vez. ‘‘Hoje a sanfona é tão parte de mim que até quando toco violão tem gente que pensa que é a sanfona. Pena que esteja em extinção. Hoje é mais fácil brincar em cima de um teclado eletrônico. Até as fábricas de acordeão do Brasil fecharam. Felizmente uma antiga, a Farfisa, está reabrindo na Itália. Isso dá esperança de que a sanfona não vai morrer’’.
Com sorriso plácido e de olhos fechados pelo excesso de luzes nos sensíveis olhos de albino, ele desfila os clássicos do choro: muitos de Pixinguinha com quem ele, Garoto, Radamés, curtiam um sonzinho quando rapazes. Sobre ter nascido albino, Sivuca brinca: ‘‘Sou meio incolor’’.
Quando fiz primeira comunhão me vestiram de roupinha branca, velinha branca quase fiquei invisível. Acho que estou ficando velho porque está me nascendo um cabelo preto na cabeça’’ . Depois da piadinha ele ‘‘quebra tudo’’ com sua levada de Jazz em ‘‘Noites Cariocas’’, ‘‘Brasileirinho’’, e demonstra com um jeitão caricato, como seria globalizado (e em vários gêneros) o frevo ‘‘Vassourinhas’’. Nesta hora Sivuca parece um Monge, pleno, ensolarado e serenamente feliz.
Sobre o CD ‘‘Enfim Solo’’, ele diz ‘‘Não pensei que fosse tão trabalhoso, tão difícil. Gravei em duas fases. Nele tem um choro em homenagem ao Dino do Sete Cordas ‘‘Dino Pintando o Sete Cordas’’, tem ainda ‘‘Ainda me Recordo’’, de Pixinguinha e Benedito Lacerda, uma melodia de Glorinha Gadelha, a ‘‘Em Nome do Amor’’, um arranjo que ele fez com carinho pela mulher, parceira, cantora com quem está casado há quase 25 anos. Foi para ela que Sivuca compôs ‘‘Aquariana’’ e para quem dedica‘‘Da Cor do Pecado’’ de Bororó, com solo de piano.
Geminiano, Sivuca vai fazer 70 anos em maio do ano 2000 e está fazendo planos para comemorar suas Bodas de Prata. Mesmo sendo ‘‘um instrumento em extinção, discriminado’’, a sanfona, segundo Sivuca, tem alguns excelentes representantes no Brasil. ‘‘Tem muita gente boa tocando como o Waldonis, Toninho Ferragutti, Oswaldinho, Dominguinhos. E eles têm batalhado muito. Felizmente tem gente como Reco do Bandolim abrindo espaços como o do Clube do Choro, no sentido de divulgar a música brasileira. Eles fazem uma espécie de masoquismo construtivo. O Clube é um bastião de resistência a favor da nossa cultura tradicional. Precisamos ter uma cobertura maior por parte das rádios’’. Um alento para o músico com tanta experiência é poder passar seu conhecimento para outros. ‘‘Felizmente as universidades estão abrindo estes espaços para jovens músicos por vocação mas também com formação acadêmica. Antigamente era só contar quatro e atacava. Hoje o músico estuda muito, ensaia muito antes de subir no palco. As universidades como a UniRio estão fazendo um excelente trabalho com estes jovens, conta o mestre que ainda estuda pelo menos duas horas por dia. Estou escrevendo para um grupo ótimo do Rio, o Rabo de Lagartixa. Tem músicos de primeira como Daniela Spielman que é uma estrela.’’
Recentemente Sivuca esteve no Recife tocando com a Orquestra Sinfônica de Pernambuco. Nesta semana ele se apresenta com a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte e ontem ele apresentou no Festival de Música de Domingos Martins no Espírito Santo. ‘‘Estou me sentindo como no livro de Abraão: muitos serão chamados e poucos os escolhidos.’’

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